Já que por sonhos posso ser quem quero
E por vontade posso ser quem sou,
Solene e alheio, minha vida espero,
E nem sonho, nem quero, nem me vou.

Firme em ser nada, plácido de tudo,
Sem outro anseio que o de conseguir
Um solitário ermitério mudo
Onde me morra o medo de existir,

Serei rei próprio, governando nada,
Da mais alta janela do meu ser,
Fitando, em trajo ritual, a estrada
De onde ninguém virá para me ver.

10 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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