Que me importa cantar!
Eu não sou poeta de canções
para embalar
ninhos nos corações.

Sou este ímpeto de gelo de lâmina
que se levanta mudo
diante de tudo.

(E quem me impede
de ter alma e sede?)

Mas quando canto
— as minhas canções ásperas
de vagabundo
sabem ao espanto
dum rio sem foz…

E na minha voz
sangra o desespero do mundo.

 


In Heróicas
José Gomes Ferreira
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