Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na minha vida tua morte.
 
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,

Teu peito de alma, calmo e □ e justo,
Como o por Maio e Junho ‘stéril pranto
Quando é Dezembro?

Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em prisões de te qu’rer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, □

Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.

23 - 5 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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