em sua boca dardeja um narciso de cuspo
não encontrará na fala sossego algum
depois do susto das palavras murmuradas
o corpo incha e poro a poro uma abelha
refulge sobre a máscara de mel

poderíamos falar dele noite adiante
mas não
o começo da escrita seria a sua voz quebrada
no silêncio obsessivo das horas
mas não
porque são horas de profundo e anónimo abandono
não o lembraremos mais

por trás da máscara recolhe-se por fim o olhar
uma vertigem o seu verdadeiro rosto
este coração em forma de quilha singrando o mar
de resto
já não há sinais visíveis da sua passagem
excepto a impressão digital esquecida
nos labirínticos arquivos de identificação

esquecemos também o seu nome ou se gostava de animais
o corpo dilui-se de fotografia em fotografia
os lábios perderam a idade e as mãos apagaram o desejo
o rosto imobilizou-se nos confins da memória

na saliva esta flor de alcatrão
ele tenta reencontrar um novo sentido para a fala
mas a vida confunde-se sílaba a sílaba
à humidade do tempo agarrado ao peito
e mais nada absolutamente mais nada
será capaz de o tornar cúmplice do riso
ele calou-se
quando percebeu que escrever podia ser um vício feliz
ou a única mentira suportável

a peste contamina a voz coalha nos lábios
o vento cessou por dentro dos ossos o vento
esse zumbido interior
que transita pelo lume das veias quando o deserto vem
na frescura indefesa doutro corpo

assim prossegue caminho
aquele que não aprendeu a ler nos relógios
assim se esquece a vida na urgência dos pulsos

ele hesita recua pondera a situação
mas nenhum grito o detém
o crime de escrever fascina-o

a adolescência sumiu-se entre a noite e a alba
frágil fio de água suspenso na luz
lago minúsculo sedução do pólen
serenidade da pétala misturando-se ao estrume
misterioso rumor alquímico do ouro

a obra é construída na paciência do sangue
rubra cicatriz de tinta
insónia do sexo corpo em transumante vigília
morte dissolvida na cinza dos dias

a pouco e pouco
ele constrói um subterrâneo em vidro
gasta o tempo incomensurável da solidão
explora filões de preciosos minerais
avança até ao início remoto da água
toca a ferida pedra do coração da terra
dele crescem a desolação e a incerteza
dele irrompem a queda da voz e o voo das aves
a palavra ainda intacta e não cansada

mas de metáfora em metáfora
ficou adulto para sempre
o subterrâneo de vidro é um estilhaço
ficou-lhe a ilusão de nele ter vivido e sonhado

as horas sem ninguém sem paixão
enquanto todo o texto se cobre de ferrugem
e envelhece com ele

apesar de tudo nenhuma mina permanecerá intacta
nenhuma semente será sagrada
em noite nenhuma encontrará felicidade
e todo o corpo terá sido devassado

a noite
da noite onde se escrevem livros ele esqueceu
a vida quase toda

      ele aceita o brilho aquático dos astros
      e como único presságio
      a melancolia aérea das açucenas
      aceita
      como único consolo
      a imensa ausência de teus braços
      e como único tormento
      aquele cuja pele ainda não tocou
      aceita como única fala possível
      aquele que é susceptível de rasgar pulsos
      aceita
      como único corpo
      aquele que cresce semelhante ao seu
      e como único país aquele espelho
      onde te reflectes e me nomeias
      aceita
      a humidade de viver sozinho

e um dia morrerá como toda a gente
nunca mais o lembraremos
nunca mais
porque neste preciso instante acabou de acordar
abre os olhos é jovem ainda
sorri e diz-me:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade

 


In O Medo
Al Berto
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