Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?

Onde me leva?, que me custa tanto.
Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

In As Mãos e os Frutos
Eugénio de Andrade
[ONDE ME LEVAS RIO QUE CANTEI]
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