Bieito –

Que é isto, Gil, que andas triste, depois que entrou este Abril?
            Não sei que demo te viste,
            que tu não pareces Gil.
            Amigo, onde te sumiste?
            Ulo aquele grande amigo,
            de limpos bofes lavados,
            daquele bom tempo antigo,
            que assi falava contigo,
            tu comigo os teus cuidados?
            Assi tão só te vieste...
            forte burrão foi o teu!
            Tanto d'amigo esqueceste
            como aqui tinhas de teu,
            nem a mim não mo disseste!
            Ora di-me, se te apraz:
            despois de tanto sol posto,
  tal inchaço inda em ti jaz?
Arrenega o mal, que traz
sempre à memória mau rosto.

   Tu olhas-me de través:
             parece que a mal o tomas;
             mas se Gil tu inda este és,
             não hei medo que me comas,
    por anojado que estés.
    Posto que, por mau acerto,
    fezeste forte mudança,
    já tanto to não referto;
    mas de um amigo tam certo
    deveras ter mais lembrança.
Muitas vezes esmagino,
Gil amigo, em ti cuidando,
na tua brandura e ensino,
que falarias estando
duas horas c'um menino.
Ora olha bem o que fais;
tinhas tantos de bons modos
cos iguais e não iguais,
quando estavas bem cos mais:
das que em ti falar a todos!
Que se fez do teu cantar?
Ninguém não cantava assi;
mas para que é preguntar
senão que se fez de ti?
Onde te iremos buscar?
Não há ora um tanto espaço,
quando Janebra casou
com Gregório, teu colaço,
- quem teve rosto aos do Paço,
quem tangeu e quem cantou?
Morreu-te gado rneúdo?
Assi vai de grau em-grau;
não se pode salvar tudo vem
bom tempo após o mau:
sofre, que sofre o sesudo   
Arrenega dos assanhos!  
já os devias ter provados;
não são os males tamanhos:
se este março não foi de anhos,
outros virão melhorados.


GIL —    

Seja, amigo meu Bieito,
             a ta vinda em hora boa;
             eu digo amigo escolheito,
             como quem o leite coa, 
             qu'há d'ir por dentr'ao seu peito.
             Mas, respondendo ao que dizes: v
             vês-me cajado e fardel,
             não caçador de perdizes;
       bem sei que há muitos juízes,
       e muito poucos sem fel.
             Mas em fim que pesa ou vai,
             — a nós parece que muito:
             diz Turibio, diz Pascoal
             palavras vãs e sem fruito,
             e às vezes inda sem sai?       
             Quando a bibera no ar morde,
             por mais peçonha que traga
             não temas que eu inche e engorde,
             não hajas medo que acorde
             bradando pola triaga. 

       Vês tu cousa que estê queda?
       Ora é noite, ora amanhece,  
       ora corre ũa moeda   
       ora  outra: tudo envelhece,
       tudo tem no cabo a, queda
       E nós a ter mão na conta
       errada! Sejamos velhos,  
       quer meninos — que mais monta?
       O presente todo afronta,
           a vida vai-se em conselhos

 Do leite e sangue empolado,
 o bezerrinho viçoso '
       vai brincando polo prado;
       despois eis que, priguiçoso,
       ora ò carro, ora ò arado.
       Cos dias e co trabalho,
    o saltar d'antes lhe esquece;
    não é já o que era almalho:
   — Venda-se para o talho,
   qu'este boi velho enfraquece.


BIEITO —

No começo os erros tem
             bom remédio; ao diante
             tem-no mau; se não vás bem,
             peor muito irás avante:
             torna atrás, que te convém.
             Não o tenhas por amigo
             quem fala sempre à vontade,
             que dissimula contigo;
             lembra-te dum dito antigo:
             qu'enfada muito a verdade.
     
   Mal vai quem sempre empeora;
      e que meninos, pastores!
      um olho ri e outro chora:
      vem um diz que são amores,
      outro mas que é mal de fora;
    um se torce, outro moteja.
    É mau jogo este das línguas:
    ou seja maldade, ou seja
    nossa amiga a triste enveja,
    vem-se em tanto à praça as mínguas.

GIL —   

O moço que entra em terreiro
            e não toca em chão, de leve,
            polo ar voa o pandeiro,
            e a toda a festa se atreve
            ele só co seu parceiro,—
            este tal baile, este cante,
            este seus jogos ordene,
            corra, vôe e passe avante",
            este cos saltos espante,
            este dê penas e pene;
  
   Mas quem já se vê das pontas,
   nem acha o que soía em si,
   começa a tomar-se contas:
   - Ouvi já melhor e vi
         suar e passar afrontas.
   Vês o tempo como foge
   que parece que não toca?
   Não queres que homem se anoje,
   - que me não conheci hoje
         na fonte em que pus a boca!
           
  E por que t'eu ora conte
            de como me  aconteceu,
            quando m'eu tal vi de fronte,
            dos olhos água correu
            mais que corria da fonte.
            Passou-se-me a sede em fim,
            que m'aquela água trouvera;
            a tal desacordo vim,
            que, quando tornei em mim,
            bom espaço o Sol correra

BIEITO —

Come de toda vianda,   
não andes nesses entejos;
não sejas tam vindo à banda,
tem-te às voltas cos desejos;
  anda por onde o carro anda.
  Vês como os mundos são feitos
               somos muitos, tu só és;
por isso, em todos seus jeitos,
   um esquerdo antre direitos
   parece que anda ao revés.
      
  Dia de maio choveu;
       a quantos a água alcançou
       o  miolo revolveu;
   houve um só que se salvou,
   que ao coberto se acolheu:
   dera vista às semeadas,
   as que tinha mais vezinhas;
         viu armar as trovoadas,
         acolhe-se às bem vedadas
         das suas baixas casinhas.
        
     Ao outro dia um lhe dava
         paparotes no nariz,  
vinha outro que o escornava.;
         aí também era o juiz,
         que se de riso finava.
         Bradava ele: — Homens, estai!
         iam-lhe co dedo ao olho.
         Disse então: — E assi che vai?
         Não creo logo em meu pai,
         se me desta água não molho.
        
         Apaixonado qual vinha,
         achou num charco que farte;
         o conselho havido o tinha:  
         molhou-se de toda a parte,
         tomou-a como mezinha.
         Quantos viram, lá correram:
         um que salta, outro que trota,
         quantas graças i fizeram!
         Logo todos se entenderam:
         ei-los vão nũa chacota.

 

GIL —     

 

 Tu sabes que eu me abrigara
              a esta vida de pastor;
              viera corrido à vara,
              cuidei que era melhor,
              que ouvira e não a provara.
              Determinava me já
              d'andar com minhas ovelhas;
              a conta saiu-me má;
              mas «tam bem cá como lá,
              fadas há», dizem-no as velhas.
    
   Andei d'aquém para além;
     vira terras e lugares,
     tudo seus avessos tem:
 o que não espermentares
 não cuides que o sabes bem;
 e às vezes, quando cuidamos
 que esprimentado o já temos,
 à cabra-cega jogamos.
 Achei-vos cá fortes amos:
 querem que os adoremos.
  Pera o mal que te acontece
  buscas o amo: ora o sono,
  ora al que nunca falece...
  Ao trosquiar achas dono,
  às pressas, não te conhece.
  Tudo lhes o demo deu,
  té razões más que nos dão;
  quando te hão mester, és seu,
  quando os hás mester, és teu:
  que não tens amos então.
  Essa vez que saem à rua,
  estremece toda a aldea;
  eles bebem, homem sua,
  dóe-lhes pouco a dor alhea,
  querem que nos doa a sua.
  Inda que é o dano em grosso,
  fôra de dissimular
  no mais, mas nisto não posso:
  o entendimento, que é nosso,
  não no-lo querem deixar. 
    
  Polo qual, co meu fardel
  fugi das vossas aldeãs;
  não trago nos beiços mel,
  nunca fui cresta-colmeas,
  nem posso ser ministrei.
  A saudade não se estrece,
  Mas caiu-me um coração
  Em sorte, que muito empece:
  Outro senhor não conhece,
  somente a boa razão.
  Porém queixo-me-te logo
  que, em casos que aconteceram,
  vi-me por ela no fogo;
  bradei, e não me valeram
  brados, queixumes, nem rogo.
  Então me saí meu quedo 
  a quedo; e fará algum dia
  o que outro não fez; e hei medo
  de ver mor vingança cedo
  do que já agora queria.


BIEITO — 

 

Tornaste-me ora à lembrança
               um teu amigo foão,
               que, ao tempo dessa mudança
               tua, foi-te assi à mão,
               como a quem os dados lança;
         e lembra-me ora bem tudo,
         que era eu i, no tal ensejo,
         inda que então me fiz mudo;
         falou-te como sesudo,
         parece-me ora que o vejo.


               - Seja, disse ele, à boa hora;
               mas eu também co meu gado
               faço assi contas cad'hora;
cad'hora me acho enganado
               desta esperança tredora.
               Dir-t'-ei como me acontece,
               quando neste vale estou:
           qualquer outro que aparece
           muito melhor me parece;  
           não é assi quando la vou.

     Assi disse aquele amigo;
     agora digo eu que hei medo,
     quando debates contigo,   
     que t'estêm mostrando ao dedo
           Gomes, Gonçalo e Rodrigo.     
           Não queiras ir muito ao fundo,
           inda que ora tanto entendas;
           nesta razão te me fundo:
           não hás de mudar o mundo,
           por mais razões que despendas.

           Perigosa é a dianteira,
           deixa ir diante os mais velhos;
           co'a paixão tençoeira
           nunca hajas os teus conselhos
       sempre foi má conselheira.
       De contino anda ao peor,
       sempre adevinhando o mal;
       nunca lhe falece dor;   
       mas, se tudo igual não for,
       seja o coração igual.


GIL —  

 

Se cos teus olhos não vejo,
           nem ouço cos teus ouvidos,
           por meus sentidos me rejo,
        e tu pelos teus sentidos,
        todo o debate é sobejo.
        Comes túberas da terra,
        eu não nas posso comer;
        nem um nem outro não erra.
        Para que é sobr'isto guerra?
        Come o que bem te souber.
       
        Eu não te digo que faças
        quanto ao apetito vem:
        não entro tanto nas graças;
        mas entendo o «saber bem»
        disto que anda pelas praças.
        Porque o tempo fez abalo,
        e somos em forte ensejo,
        inda alevanto outro valo:
           que nos doentes não falo,
           os quais mata o seu desejo

           Bem digo que a verdade era
           ir pelo fio da gente;
           cos mais, mais forças houvera,
           e o amigo e o parente
           que murmurar não tevera.
           Porém a mim, só, não minto,
           não dobro, não lisonjeo;
           som,farto, que era faminto:
           que mal é o meu destinto
           antes seguir, que o alheo?

           Vou fugindo às armadilhas
           que vi com manha esconder;
           não quero ouvir maravilhas
           às vezes mui más de crer:
             de má mãe nacem más filhas.
             Querem que homem ouça e crea,
             e que estê a boca aberta.
             Não posso; e daqui se atea
             às vezes a má estrea,
             que a cada passo está certa.
         
           Olha se a razão concrude:
                  és doente, teu pai não;
           Digo outro tal da virtude:
           pola ventura és tu são,
           porque teu pai tem saúde?
           Não; que cumpre outra mezinha.
           Olhe cada um por si;
           o bem não é como a tinha,
           que se apegue tão asinha;
           o mal pode ser que si. 
            
   Lê-me primeiro esta lenda:
             deixaram-te os teus passados
             terras e vinhas de renda?
             Olha que vão mesturados
             encargos co'a fazenda;
             Cumpre a cada um que arribe
             per si; sé desejas honra,   
             não te abasta: «donos tive»
             que quem como eles não vive,
             tanto mais sua desonra.

Bieito –

 

Pois contigo a razão val
           Vejamos quem mais conjunta.
            Olha que todo o animal,
            forte ou fraco, aos seus se ajunta
            por destinto natural.
            As pombas andam em bandas,
  voam grous postos enr az
  estas; andorinhas brandas;
  não querem de nós viandas,
  querem companhia e paz.
    
     Como no mundo apontamos,
     de: ventre em terra caímos:
     como de nós sós choramos,
     doutrem que ajuda pedimos!
           Nós sós para que prestamos?
           Então ver  a fantasia
           dos nossos leves zagais!
                 A quem inda mais diria
           que não hei por companhia,
           salvante a dos meus iguais
           
  Um bacorote honradiço
            foi ver, o gado ovelhun;
            pô-lo todo a seu, serviço,
            trombejava ali um e um,
            que espantá-lo era seu viço.
            Vem um dia o lobo, e apanha
           o bacorote engrifado;    
   abrandou-lhe aquela sanha;
   brada ele; em pressa tamanha,
   cad'um de si tem cuidado.
             
          Vinham os porcos d'aldea
             atrás, e grunhir ouviram:
             um escuma, outro esbravea;
             estes, si, que lhe acudiram:
             perde o lobo sua cea.
             Olhou ele, e viu tremer
             de lã branca o gado; e olhando de longe,
             se põe a ver. Disse: — Antes mandado ser,
             que a tal perigo tal mando.

        Fui um dia à vila, Gil:
        eu, logo ò sair de casa,
        mais verde que um perrexil,
        cuidei que matava a brasa
        de galante e de gentil.
        Bem passei cos viandantes;
        mas, despois lá, quando cheas
        vi as ruas de galantes,
        s'eu viera ufano d'antes,
        não tornei tal às aldeas.
          Em quanto um diz, outro ri:
               - Bom vai o do barretinho!
               - Nunca o tam figadal vi!
               Chamavam-me outros «ratinho»,
               uns assi, outros assi.
               Finalmente, por acerto,
               vinham-se dos nossos já;
               deixei-os chegar ao perto,
               i passei como encoberto...
               mas tarde me acolhem lá.

Gil -        

 

Falas-me nos animais,
            a que nós brutos chamamos,
            que guardam leis naturais;
            nós outros não nas guardamos,
             a isso obrigados mais.
             Estes homens com quem tratam,
             não homens, mas leões bravos,
             por força tudo rematam;
              os leões não se resgatam,
              não se vendem por escravos.
              
 Para que mandem nem rejam,
               não vão as águas tingidas do seu sangue;
               se pelejam, não alçam forcas erguidas,
               onde ás aves manjar sejam.
 Não tem repartida a terra
 por marcos tam desiguais,
 de sangue e fogo por guerra:
 um possue de serra a serra,
 outro nada, ou dous tojais.
 Espanto é desigual
 da lei que entre si tem gralhas:
 vendo ũa que passa mal,
 decem, gritando, em batalhas,
 não tratam estonces de al.
 Ora te direi assi
 (quem diz o que viu, não mente):
 guer-te de cair aqui,
 que verás passar por ti
 o amigo e o parente.
        Nunca ora ouvi um rifão
        mais sabido e mais usado:
        «que darem todos de mão,
         se jaz o carro entornado»
          - os que vem, e os que vão!
     Falo porém geralmente,
     não tomes outra suspeita,
     que é mui suspeitosa a gente:
     o meu amigo fervente
               não entra nesta receita.
            
     Muitos dos vaus apalpei,
     aos trabalhos me despus;
     dês que cuidei e cuidei,
 disse comigo: — Ora sus,
 se erros fiz, erros paguei.
 Cuida homem que bem escolhe,
 às singelas, só consigo,
 não sei quem te a vista tolhe;
 fujo, como quem se acolhe,
 donde vê certo o perigo.
 
 Andando só, não me empecem
 maus olhos, nem más palavras,
 nem se apega, se engafecem
 por outros fatos as cabras;
 curo-as, se me adoecem.
 Por que tudo diga em suma:
 não temo que o cabrito
 me esconda o vezinho e coma;
 aqui, se paixão me toma,
 posso cantar, voz em grito,

     Que me não ouça ninguém,
 sòmente as aves, — que tais
 duas avantagens tem destes outros animais:
 voar e cantar tão bem;
 ou ao som d'água que cai,
 rompendo pelos penedos,
 dece ao fundo, ao alto sai:
 ela que a grã pressa vai,
 eles para sempre quedos,

  Vês tu as minhas cabanas?
 Se o vento se muda assi,
 as revezo eu; Aldas, nem Anas
 não dão voltas por aqui,
 mais leves que ao vento canas,
 cantando dos seus solaus,
 (que me façam merecer
 muitas destas vara-paus)
 com seus olhos vaganaus,
 bons de dar, bons de volver
O sol de dia, as estrelas
de noite, quantas que vemos!
Nacem delas, põem-se delas...
Olhamos mais que entendemos;
e a lua, fermosa, entr'elas
que se renova e reveza,
ora um fio, ora mais chea,
  ora em sua redondeza,
      cada mês — com que certeza! —
      semelha a da nossa aldea!

Do que ao meu gado sobeja
vou vivendo ano por ano;
pouco ou muito que ele seja,
a ninguém não faço dano,
e não se há ao pouco enveja.
Parece vida, em verdade,
dos mastins, gado e pastor
como de comunidade;
com tal fome e frieldade,
tudo rege e manda amor.

Do mais, dezia Pascoal:
—Sabes que é o que nos come?
Má cobiça, que não al;
onde quer se mata a fome,
matam-se apetites mal.
Polo sol e pela neve,
natureza, a grande madre,
qu'aos filhos também cho deve,
a tudo acudir se atreve,
   por mais que este ventre ladre.

Meu gado levo, esse sigo,
que inda são mais embaraços
do que eu quisera comigo;
passei por tantos dos laços,
que olhar sòmente é perigo.
No meu samarrão metido,
que mais quero? Sou pastor,
cá nunca chega apelido
de fogo, nem de arroído:
mal se for, mal se não for.

Aqui por estes abrigos
(os mais debates deixemos)
virão ver-me os bons amigos;
ao sol nos entenderemos,
  falando em tempos antigos;
  e despois dos meses mil,
  quiçais inda dirá alguém,
  olhando este meu covil:
  - Por aqui cantava Gil
  sem queixia de ninguém.

Quando tudo era falante,
pascia o cervo um bom prado;
aí veo o cavalo andante;
quis comer algum bocado,
pôs-se-lhe o cervo diante.
Outra razão lhe não deu
(que eram pacigos gerais)
salvo «posso e quero o meu»;
este «meu» e este «teu»
tanto há já que nos fez tais.

Vendo tam pouca prestança,
o cavalo, dantes forro,
com desejo de vingança,
pedindo ao homem socorro,
por terra aos seus pés se lança
Não pode, à justa querela,
deixar de se pôr no meo;
mas foi necessária a sela:
fez-se o homem forte nela, t
toma a rédea, prova o freo.

Assi dão volta ao imigo.
O cervo, quando tal viu,
— homem ao cavalo amigo —
deixou lhe o campo e fugiu,
foi buscar outro pacigo.
O cavalo, vencedor,
corre o verde e corre o seco:
fora, fora, o contendor!
Ficou-lhe porém senhor,
não foi tanto o outro enxeco

Quem há tal medo à pobreza,
  tal à fome e frieldade,
  que por ouro e por riqueza
  dá a só rica liberdade,
  e mais outrem que a si preza?
  Se lhe vês herdades largas;
  não lhe hajas enveja à troca,
  que embaraçam as roupas largas;
  faz sangue o freo na boca,
  as esporas nas ilhargas.
  
   Mas, tu olhas o sol que anda,
   amigo? É tarde: folga ora,
 deixemos esta demanda
 mal-avinda pera outra hora;
   a cea fôra mais branda;
   Com dous peixinhos passaras,
   do rio, não d'almocreves,
   que as vilas fazem tam caras;
   beberas das fontes claras,
         sonharas sonhos mais leves.

BIEITO —  

 

Volves-me as cousas de envés,
  qués por força que te crea
  o que tu quiçás não crês;
  sabe que a alma é já na aldea,
  lá me hão de levar os pés.
  E tu dize o que quiseres,
  torce cá e torce lá,
  defende teus pareceres
  mas onde i não há mulheres,
vida nem gosto não há.
Aquela graciosa idade
que òs olhos vistos nos furta
com tanta força a vontade,
com tanta o juízo encurta,
não é de todo vaidade.
Suspiraste! Ora eu te entendo
e ver-nos-emos despois;
              por ora, a Deus te encomendo. 


Gil -       

Não te quero estar detendo. 


Bieito -      

Vou-me, que é tarde, aos meus bois.

Basto -   

Contou-se isto pola aldea,
             de pastores em pastores:
    logo foi a terra chea. 
     Então quais eram melhores? 
    Mas, revolto o calendário,
      visto tudo, e contas feitas, 
    fica assentado em sumário:
    Gil por homem voluntário,      
    homem Bieito às direitas.

Sá de Miranda
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