Sob o luar, minha mãe, sob o luar
Beijava-me ele, minha mãe…
Ah, que amoroso bem
Dizia do meu olhar!
«O teu olhar é um uno céu» dizia
No calor da noite fria…

(Cadáveres mudos na treva
Ficaram da batalha.
Folhas que o vento leva
Sobre eles o vento as tresmalha)

Sob o luar os meus lábios eram
«Doces», minha mãe, «doces», dizia
Agora o que perderam!
A minha boca está fria…

(Cadáveres meio-brancos
Na noite que os mostra-esconde.
Ficaram nos barrancos
Vêem-se de onde a onde)

De que serve amar, minha mãe,
Que cedo ou tarde desama?
Farei da morte meu bem
E da cruz — minha cama

(Cadáveres de ignotos,
Vencedores? Vencidos?
Vimos pôr inda de olhos remotos
Nos mares indefinidos)

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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