A alma humana é porca como um ânus 
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações. 

Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago. 
A Távola Redonda foi vendida a peso, 
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a. 
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil
                             distante. 

Está frio. 
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xale — 
O xale que minha tia me punha aos ombros na infância. 
Mas os ombros da minha infância sumiram-se muito para dentro dos                                                                                     meus ombros. 
E o meu coração da infância sumiu-se muito para dentro do meu coração. 

Sim, está frio... 
Está frio em tudo que sou, está frio... 
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha... 
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que
                            elas. 

Engelho o capote à minha volta... 
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!... 
A multiplicidade da humanidade misturada, 
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se não houvesse outros e estrelas... 

Sim, a vida... 
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala... 
Querem comentário melhor Puxo-me para cima o capote. 

Ah, parte a cara à vida! 
Liberta-te com estrondo no sossego de ti! 


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
« Voltar