Nos altos montes dorme a paz.
A sombra que cada árvore faz
Não tem razões para existir.
O vento vão que vem bulir
Com as folhas dos arvoredos
Só mexe em rastos e □ quedos.

Jazo entre as sombras e entrevejo
A morte de cada desejo...
Sem mágoa a sinto e sem prazer
Sinto que me sinto morrer.

Não abro um braço ou um sonho devo
Ao sossego de um enlevo.
A paz dorme nos altos montes
No silêncio dos horizontes
E tudo azul e calmo o lago...
Se o vento, com um vago afago,
Ergue uma folha, logo a deixa...
Não sobra um hausto ou uma queixa...

Sossego, como quem respira.
A nada sou ligado e aspira
A nada meu enlevo quedo.
Vivo em □ e em segredo...

Por mim, como um rio por margens,
Passa, em □ e em imagens,
Em sombras de memórias idas
A alma das cousas esquecidas
E só conheço, como à noite,
Antes que em mim o dia se afoite
A dor universal de ser
E a ânsia por não mais viver,
O inútil e profundo,
O asco do mundo pelo mundo...

30 - 1 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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