No acaso da rua o acaso da rapariga loira.  
Mas não, não é aquela.
  
A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
  
Perco-me subitamente da visão imediata,  
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,  
E a outra rapariga passa.
  
Que grande vantagem o recordar intransigentemente!  
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, 
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.
 
Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!  
Ao menos escrevem-se versos. 
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar,  
Se calhar, ou até sem calhar,  
Maravilha das celebridades!
  
Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos... 
Mas isto era a respeito de uma rapariga,  
De uma rapariga loira,  
Mas qual delas?  
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, 
Numa outra espécie de rua; 
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade 
Numa outra espécie de rua; 
Porque todas as recordações são a mesma recordação, 
Tudo que foi é a mesma morte, 
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?
 
Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. 
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas? 
Pode ser... A rapariga loira? 
É a mesma afinal... 
Tudo é o mesmo afinal ... 

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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