Em não sei que país ou que viagem
Por não sei que olhar rápido casual
Branca descortino entre a folhagem’
Uma casa longínqua que faz mal,
     Uma casa entre as árvores.

Mora ali toda a vida que eu não tenho,
O sossego que busco a caminhar,
E caminhando nunca a achá-lo venho,
E, parando, não tenho, que parar...
     Mas a casa entre as árvores?

Caminho para lá? Qual, se ela é vista
Não para lá se entrar, e ao longe só.
De aqui da estrada meu olhar se atrista
Mas ela só existe quando dista
Só é para mim quando para lá não vou —
     Essa casa entre as árvores.

Tu, ‘spírito gentil que nela moras
Sabes sem dúvida que cura tem
O peso de sentir a alma e as horas,
E se há dores ou sonhos que tu choras
São de outro bem p’ra além do nosso bem —
     Tu, na casa entre as árvores.

Mas sejam quais os sonhos que tu teces3
Só tu não buscas,  bem o sei.
Vistas de aí são várzeas mais 
De mim mesmo só o longe me conheces
Quando da estrada, e sem parar, amei
     Tua casa entre as árvores.

No eterno caminho a alma é inconstante
Porque procura e sabe que é em vão.
A nossa casa? Nunca foi bastante!
Só a casa entre as árvores distante...
Mas que país, ou vida, ou emoção
     E a casa entre as árvores?


 espaço deixado em branco pelo autor


15-9-1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar