Veio toda a noite dos lados da barra
      Com chuvas o vento —
Um vento daquele que rasga e desgarra,
      Veloz e violento.

E por toda a noite, ouvindo-o sofrendo,
      Pensei no que sou —
Uma alma, sozinho, planeando, e sabendo
      Que ignoro onde vou.

E por toda a noite na minha consciência
      Inerte e desperta
Cruzavam-se a chuva e o vento, e a ciência
      Duma alma deserta.

Raiou sossegado, desfeita a tormenta,
      O dia por fim,
E eu esqueci também a minha dor violenta,
Levada talvez pela longa tormenta
      Para longe de mim.
28 - 10 - 1926

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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