Tange a tua flauta, pastor. Esta tarde
Pertence à dor, à tua dor que em mim arde.

Tange por isso pastor, a tua flauta a tremer.
Tange, tange, para que eu me não sinta sofrer.

Leve, um vento antigo passa entre ti e mim.
Leve, o vento regressa, e a música está no fim.

Mas nunca haverá fim ou música em meu tormento.
Tange outra vez a flauta, pastor. Deixa o vento

Estar entre ti e mim outra vez, como a sombra triste
Que está na tua alma, e na minha alma, e não existe.

14 - 6 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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