Do abismo onde o Passado dorme e ‘spera
Qualquer ressurreição desconhecida,
Inúteis mãos estende para a vida
Uma sombra, que a morte fez austera.

O amor a ergueu de onde, velado, impera
O caos e a velha noite indefinida...
A dor do amor, que quer, e obtém, e olvida
Sem poder olvidar, a dilacera.

Em cela ou claustro ergue — as mãos rezando,
Para que dolorosa imprecação,
A quem? — o gesto de quem ‘stá chorando?

Nada... Só o silêncio e a solidão
E o claustro abandonado, e o brando
Frio ao luar, e o meu incerto coração...


[c.29-3-1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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