Através da radiofonia
A melancólica voz
De não sei que melodia,
Ou de quem a canta a sós
Ante um microfone morto
Como que chega ao porto
Quando chega até nós.

Quantos, como eu,
Sentem agora
A atracção de banalidades e céu
Dessa canção
Que foi marcada nos jornais para esta hora
Mas punge o coração.

Ah, não há hora, nem há emissora,
Nem aparelho surdo a que cantar
Que possa enganar
O que o coração chora,
Que possa evitar
Que se levante o véu
Do que se passa nesta hora
Entre a banalidade e o céu.

Que estúpida canção
É, palavra a palavra,
O que esse francês vem cantar
Da sua lavra.
Enchem-se-nos os olhos de lágrimas,
Porque não?
Mas não, não quero chorar.
Um poeta ter lágrimas
Perante um cantar!
Que vergonha para a poesia!
Mas o coração
Com o que quero nada quer,
E vai na esteira de essa voz e melodia
Sem eu o saber.

 

28 - 7 - 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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