No poço que há no fim do mundo
Vão as crianças procurar
Tirar desse poço sem fundo
A água que se não pode achar.

E uma após outra o balde deita
Preso por uma corda fina
E nada sai, e tudo espreita,
E a humanidade é pequenina.

No mundo que há aqui na vida,
Do poço que há onde há haver,
Sai água, sem grande descida,
E todos podem água ter.

Mas eu, que a vida sinto má,
Acho, em meu sentimento fundo
Que mais vale a água que não há
No poço que há no fim do mundo.

24 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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