Nosso é o Mar. Nosso e renosso. 
Pla dor, pia teimosia, pela esperança. 
Nosso até onde a vista o não alcança. 
Nosso até onde é nosso o que for nosso.
 
Mas depois de o ter ganho abandonámos 
alma e corpo à fadiga de o ter ganho. 
Bartolomeu, não olhes. Não despertes 
do sono que te dorme há cinco séculos. 

Já o gume das quilhas não fecunda 
teu ventre feminino, Mar aberto. 
Falsa energia a nossa! Desflorado 
teu sexo, Mar, aos corvos o cedemos. 

Voluptuosa e saudável, tua carne 
é convite e oferta como dantes. 
Nós, mortos! Nós, sem força! Nós, sem fogo, 
de uma saudade mole possuídos! 


In PELO SONHO É QUE VAMOS , Ática, 1992
Sebastião da Gama
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