I

Um dia, numa peça divertida,
No intervalo pus-me a contemplar,
Larga e cómica, em coluna esculpida,
A máscara da Comédia, num esgar;
Aberta ao humor alegre e mordente,
A cara da Comédia, sorridente.

II

«Ah», disse eu, «cara alegre e engraçada,
Em ti a felicidade está patente,
Poucas assim, cómica boca rasgada,
Oh, a cara da Comédia, sorridente;
Do rir enrugada, livre, feiona,
A máscara da Comédia tão risonha».

III

Mas ao ver a cara que sorria,
Semicerrando os olhos pensativo,
Disse, «Ah, como é cruel esta alegria,
Falso o sorrir, forçado e agressivo;
Irreal, aprisionada, em esgar torcida,
A máscara da Comédia endurecida».

IV

E estremeci — já não sorria agora —
E o riso forçado nem sequer se via.
Oh, cara medonha, aterradora,
Cara que a dor emudecia;
Gasta, louca, histérica, aprisionada,
A cara da Comédia consternada.


1906

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Fernando Pessoa
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