Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho 
Fito a ponte pesada e calma... 
Cada sonho é um existir de outro sonho, 
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma! 

Sinto em meu corpo mais conscientemente 
O rodar estremecido do comboio. Pára?... 
Com um como que intento intermitente 
De □ mal roda, estaca. Numa estação, clara 

De realidade e gente e movimento. 
Olho p’ra fora... Cesso... Estagno em mim. 
Resfolgar da máquina... Carícia de vento 
Pela janela que se abre... Estou desatento... 
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim 

Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca 
Chegares, ó ferro em trémulo seguir! 
À margem da viagem prossegue... Trunca 
A realidade, passa ao lado do ir 
E pelo lado interior da Hora 
Foge, usa a eternidade, vive... 
Sobrevive ao momento □  vai! 
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora 
□  entra na gare... Range-se... estaca... É agora! 

Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive 
Resvala-me pela alma... Negro declive 
Resvala, some-se, para sempre se esvai 
E da minha consciência um Eu que não obtive 
Dentro em mim de mim cai. 




□ espaço deixado em branco pelo autor


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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