AH, já está tudo lido,  
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
Que música vem ter?

Se escuto, nenhuma.
Se não oiço ao luar
Uma voz que é bruma
Entra em meu sonhar

E na ilha encantada
Sou o que desejo,
Ali não sou nada
E onde há luar alvejo.

E esta é a voz que canta
Se não sei ouvir...
Tudo em mim se encanta
E esquece sentir.

O que a voz cantou
Para sempre agora
Na alma me fica
Se a alma me ignora.

Sinto, quero, sei-me
E tudo é perdido…
E o eco em que enganei-me
Foge do meu ouvido.

7 - 9 - 1922

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar