Minha alma — o que é? Só em símbolos mudos
Seu horror e confusão serão exprimíveis:
Deserto fora do espaço onde, absoluta,
A esperança reina com dúvidas horríveis.

Sua ideia é a que dá, estranha e escura,
Qualquer rio desconhecido, só, embruxado,
Num velho quadro ignoto, única pintura
De algum bom pintor, por azar ignorado.

Ela é uma ilha fora de humanas vias,
Misteriosa, antiga no meio do mar,
Com grutas, cavernas virgens e sombrias,
Cheias de horrores, possíveis de encontrar.

É velha estalagem com corredores tecidos
Num labirinto escuro onde, noite fora,
Sem causa nem lugar se ouvem ruídos
De portas a fechar, o que nos apavora.

Montanhosa região, livre e bravia,
De precipícios silentes, invisíveis,
Onde não ousamos pensar o que seria
Nem querer saber que coisas lá possíveis.

Se mistério, romance ou medo um dia
0 coração mostraram em papel ou tela,
Decerto que aos homens ele apareceria
Como a alma surge ao meu sentido dela.

Deserto de penhascos no meu imaginar
Onde tudo está aquém e além razão,
Costa erma onde, sem fim, o bater do mar
Enche de um som vazio a sua solidão.

Algo perdido, vago, morto e olvidado,
Mas desperto, como alguém em místico sonhar,
Se nota, pois quem olha sabe apavorado
Que alguma coisa vê que é de aterrar.

Tudo isto é minh'alma, em desespero desolado,
Sentindo tudo em dor, pensando até chorar,
Tendo por paga da razão mudo cuidado,
Como companhia do sentir — medo e pesar.

Como alargado em ópio, ao meu olhar
Meu próprio ser um mistério se fez assim;
A Vida no medo já vem habitar
E a Loucura, como o sopro, está em mim.


1906

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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