Não, não é cansaço... 
É uma quantidade de desilusão  
Que se me entranha na espécie de pensar,  
E um domingo às avessas 
Do sentimento, 
Um feriado passado no abismo...  

Não, cansaço não é... 
É eu estar existindo 
E também o mundo, 
Com tudo aquilo que contém, 
Como tudo aquilo que nele se desdobra 
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

Não.  Cansaço porquê?  
É uma sensação abstracta 
Da vida concreta — 
Qualquer coisa como um grito  
Por dar, 
Qualquer coisa como uma angústia  
Por sofrer, 
Ou por sofrer completamente,  
Ou por sofrer como... 
Sim, ou por sofrer como... 
Isso mesmo, como... 
Como quê?... 
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 

(Ai, cegos que cantam na rua,  
Que formidável realejo 
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) 

Porque oiço, vejo. 
Confesso: é cansaço!...


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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