Que modo to sutil da Natureza,
para fugir ao mundo e seus enganos,
permite que se esconda, em tenros anos,
debaixo de um burel tanta beleza!

Mas esconder-se no pode aquela alteza
e gravidade de olhos soberanos,
a cujo resplandor entre os humanos
resistncia no sinto, ou fortaleza.

Quem quer livre ficar de dor e pena,
vendo-a ou trazendo-a na memria,
na mesma razo sua se condena.

Porque quem mereceu ver tanta glria,
cativo h-de ficar; que Amor ordena
que de juro tenha ela esta vitria.

Luís Vaz de Camões
[QUE MODO TÃO SUTIL DA NATUREZA]
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