O teu corpo incorpóreo não se forma
De átomos, partes, nem é movimento;
Tua forma irreal não é uma forma.

A luz te gera, e o Corpo te produz
E és contrário da luz e claridade
E não tens como o corpo densidade:
É que vens d’ Além-corpo e d’ Além-luz.

Mistério revelado e impensável!
Nos interstícios da realidade
Que a ciência explicada não invade

És o ar em que bóia
O disperso universo □ luminoso

Nem de partes de sombras és formada
És una e íntegra e não és alma
És exterior visivelmente nada.

Com teus lábios de □ e mistério
Beija o meu ser que te medita, rente
A um pensamento inatingido e etéreo;
Unge-me o coração renitente
Da tua graça, e dá-me que
A luz é o Inferno esplendoroso
Que és a Forma Irreal.
 
Tu és a Antiga, a Essência, a Realidade.
O universo não é
A luz é só local, é sóis e estrelas
Num oceano de trevas

A cor é luz, e tudo é luz viva e ente
Só tu és luz-ausente,
Só tu intersticias teu mistério
No mundo claro e aéreo.

Os corpos são de luz em sua essência
Em seu espírito de ser, real e nu,
E a luz bate num corpo e nasces tu.
Que vida é a tua? Qual a etérea ciência
Que há-de dizer à □ compreensão

No vácuo verde e azul da claridade
O dia morre. Vai de luto no ar
Assim possa minha alma comungar
Como agora meus olhos alheados
Da Sombra Eterna, Espírito e □

Quais ritmos de luz, □
Sistemas, crenças, passam com seu fim
Além da minha consciência em mim
Minha alma os entrevê, não os detém
Com seu □ olha do pensamento
E pensa em dor, se a realidade
Deles, e se o Mistério ali quiser!

 


[1910]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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