Ó curva do horizonte, quem te passa
Passa da vista, não de ser ou ‘star.
Seta, que o peito inerme me traspassa,
Não doas, que morrer é continuar.

Não vejo mais esse a quem quis. A taça,
De ouro, não se partiu. Caída ao mar
Sumiu-se, mas no fundo é a mesma graça
Oculta para nós, mas sem mudar.

Ó curva do horizonte, eu me aproximo.
Para quem deixo, um dia cessarei
Da vista do último no último cimo.

Mas para mim o mesmo eterno irei
Na curva, até que o tempo a esfera
………………………………………
E aonde estive um dia voltarei.

13 - 5 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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