Teu corpo delgado,
Flexível, moreno, —
Anda nos meus olhos
Desgraçadamente.

Não vejo outra coisa!

E nos meus sentidos
Só vive o teu corpo;
— E eu ando mais magro,
Sinto-me doente,
Os nervos cansados,
Os nervos partidos...
 
Como as águas das ribeiras
E as águas dos rios
Se perdem no mar,
Assim os meus olhos
Vão atrás de ti
Quando te vêem passar!
Não é bonita a imagem?
Eu não sei fantasiar!

E quando a luz dos teus olhos
— Sombra de um dia de Maio,
Luminosíssimo, quente,
— Silêncio de madrugada
Rompendo no mês de Julho,
Quando os teus olhos se fixam
Rapidamente nos meus,
Eu não sei o que desejo
Nem sei o que hei-de pensar!
— Sinto que morro no som
De uma nota musical
Que qualquer pode cantar!

Espera; não vás ainda:
Escuta o resto da vida
Nestas palavras de amor:
Tens no teu corpo a reacção —
Da manhã, do anoitecer,
E o teu sorriso é um sol

O que dirá o teu corpo
Quando eu o puder beijar?

 


In Toda a Vida


In As Canções de António Botto - Primeiro volume das obras completas
António Botto
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