Passam as nuvens, murmura o vento
Passam as nuvens, vão devagar.
Demoro em mim o meu pensamento
E só encontro não encontrar…

Passam as nuvens, os ventos vão,
Levam as nuvens a um vago além
Mas nunca a dor em meu coração
Ou a ânsia vaga de que provém.

Passam as nuvens, não têm destino
Salvo passar, não ficar aqui…
Assim meu ser tivesse um divino
Nenhum-destino, não ser de si.

Passam as nuvens, eu fico e tenho
Por meu destino pior, ficar…
Sem saber donde, nuvem, provenho
Ou qual o vento que me há-de levar…

30 - 4 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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