Tudo acabou: os campos e os pinhais
Desde que enfim fechei janela e porta
Agora não sou mais
Que quem não vê e a quem a vida é morta.

Mas que bom o sossego de quem tem
A casa sua e a fecha contra o mundo!.,
Estar só é um bem
Se de estar só há um sentimento fundo.

Tirar da consciência a natureza!
Fechar a alma contra o céu e a terra!
Basta uma tábua dupla em gonzos presa
E correr firme um ferroz que se enterra..

Assim se apaga de quem vive a vida,
Assim o sonho tem o seu lugar
Naquela estagnação indefinida
Que está em ficar só por só ficar.

Mas, ah, fechada a casa e eu, sozinho,
O que sou e o que fui, em fúria nua,
Vem ter comigo, porque o seu caminho
Não há porta fechada que o obstrua.

E eu, que queria ser só, vejo dançando
Ante meus olhos de quem sou em mim
Um vil, irrepelível bando
Que não tem nexo mas tem fim.

Não ouso abrir de novo o que fechei.
Aqui, escravo dos sonhos que pedi,
Sou verdadeiramente rei,
Ah, mas sou rei de aquilo que perdi.

E oiço lá fora o arvoredo e o vento
Fazer barulho, rir, só rir, de quem
Quis contra eles fechar seu pensamento
Mas não o soube fechar bem.

Imagens destroçadas do passado,
Futuros frustes, ébrios de arremedo
Num ritmo falso e desdobrado
Em amplas áleas de ilusão e medo.

Porque fechei meu pobre ser comigo?
Porque vendi a natureza a quem
Não tem nem amor nem amigo?
Porque sem paz me tornei eu ninguém?


[24-8-1934]

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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