Ergo do livro, onde o candeeiro atento
Lança o excesso frugal da sua luz,
Os olhos turvos... Alta noite... O vento
Cessa, e os ruídos... Tudo está cerrado
No quarto onde o silêncio se traduz
Pelos móveis quietos e vulgares,
De repente conheço-me deixado
Pela ilusão da vida e dos lugares...

Fito a minh’alma frente a frente e vejo
Agora, só comigo e a minha vida,
Que sou pequeno, nada, fumo, e o ensejo
Horrível de fitar-me na descida
Para o mistério de mim mesmo agrada
Tanto ao que em mim é análise vivida
Quanto ao que é dentro em mim alma alarmada...

Eis-me ante mim como ante uma cifrada
Carta que misteriosa eu recebesse...
Não sabendo o sentido à alma, e nada
Do que a vida queria que eu vivesse
A noite ao pé de mim pára e arrefece
Há ainda menos não-haver ruído
No lá-fora, e eis que plos degraus, do olvido,
O meu antigo ser trôpego desce...

Quis ser o Poeta, o supremo Poeta,
Quis ser filósofo consciente e alto
Quis ter a dor por □ secreta...
E hoje tudo que quis, tudo me falto...

Ó noite horrenda e cheia de verdade,
Ó fragata □ de imensidade
Fito o horror de mim onde hoje estou
(E tudo o que quis ser eu nada sou)
E um desespero tímido me invade,
Um horror comedido à hora e à vida
E como um vento forte que passou
Sente meu ser, cheio de saudade
O espaço estranho onde passou a Vida.

 

7 - 12 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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