Hoje estou triste como alguém que quer chorar
E já não sabe na alma
Como é que nos olhos se chora...
Entre mim e o sol plácido da calma
Nuvens sinto passar
Rápidos tédios sobre o chão da Hora...

Não sei quem sou perdidamente
Há alamedas de jardins vetustos
Naquela angústia com que quero o ausente
Ser, tempo, cor das cousas, que me arranque
Desta monotonia com arbustos
Na vida, com buxo calmo, com som de tanque...

O século dezoito que havia em mim,
Pelo menos em lágrimas, passou
Com um ruído de cetim...
No ar de Pompadour já triste
Do teu imaginado vulto errou
Do meu presente o mal que em mim existe...

Meu corpo pesa no meu pensamento
De nunca deslocar-me até à alma
E ter sempre o momento
Aqui, eterno enquanto dura...
Não haver villas de romana calma
Por estradas atingidas de amargura...

O sol hoje acordou-me num disfarce
Da natureza do meu triste amor
Por tudo quanto passou
E eu vejo como se nunca passasse
Mas ele passa e tem no gesto a cor
Das cousas vistas na alma irreal que sou.

Não deixes, minha sombra amarelada
De branco, bruxuliante
Na hera do teu jardim, de esta ciciada
Dança erma e galante
Das palavras trocadas em disfarce
Dum pensamento vago que atravessa
As salas que estão diante...

Deixa que a brisa como um cisne passe
No lago da visão que cessa.

5 - 3 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar