Sinto-me forte contra a vida inteira 
      Neste momento.
A mim mesmo tomei a dianteira.
Sinto que não há em nada noite ou vento
Que estorve minha vida aventureira.

Mas já, ao senti-lo, sei que não o sinto
      Com o querer,
Mas com o sonho com que me amplo minto.
Sei já que não o quererei perder.
Noutra esta vida do confiar pressinto.

Sarça que não aquece nem dá luz,
      Fogo-fátuo de mim,
Para que vens pôr no meu ser a flux
Um tumulto de qu’rer sem ser nem fim? 
Ó árvore crescendo para cruz,
Porque florir no meu jardim?


[23-1-1925]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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