o olhar saboreia o morno vinho
      envolve teus cabelos, bebe no teu rosto, adormece
      dormente onde tu e as aves vêm pernoitar
      aqui sentado, neste restaurante de praia
      mosquitos, árvores reclinadas, talvez palmeiras envelhecidas como eu
      pregos ferrugentos, madeiras soltas, a boca rente às areias
      resíduos calcários de passos pelas ervas altas
      águias, soberbas e lentas
     
      (o puto move-se, apertado nas calças finas, como se tivesse o corpo
e os movimentos forrados por uma película em matéria finíssima, transparente, deixando
contudo aperceber as modulações de seu corpo-rebuçado)
     
      bebo, apetece-me gritar no horizonte do meu filme mudo
      embriagado e desfeito, olho
      aves irradiando luz, cordas encerradas pela transpiração das mãos
      as vozes dos homens numa rebentação distante da ressaca
      as vozes dos homens puxando os barcos: só o mar das outras terras é que é belo
     
      em grande plano
      ocupando-me por completo o écran desfocado dos olhos
      o algodão pobre de tua camisa, as unhas roídas
      os dedos duros engordurados, o buço macio
      despontando num desafio que eu aceito

      espero que a noite venha com os seus ínfimos, e solte transparentes
borboletas cobertas de mel
      parece que só assim, dizia Lucrécio
      tua imagem permanecerá perto de mim, e a doçura do teu nome insinuar-se-á
      gota a gota, junto ao coração    

 

 


In O Medo
Al Berto
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