Vive o momento com saudade dele
      Já ao vivê-lo...
Barcas vazias, sempre nos impele
      Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos...

Demo-nos pois a consciência disto
      Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
      Sob um céu ermo e vago,
E que a nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja...

Assim idênticos à hora toda
      Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa ante-boda:
      Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo...

Porque o que importa é que já nada importe...
      Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
      Ou, ténue e longe, cale
Seus gestos... Tudo é o mesmo... Eis o momento...
Sejamo-lo... Pra quê o pensamento?...


Alhandra, 11-10-1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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