1
«Despois de procelosa tempestade,
Nocturna sombra e sibilante vento,
Traz a manh serena, claridade,
Esperana de porto e salvamento;
Aparta o Sol a negra escuridade,
Removendo o temor ao pensamento:
Assi no Reino forte aconteceu
Despois que o Rei Fernando faleceu.

2
«Porque, se muito os nossos desejaram
Quem os danos e ofensas v vingando
Naqueles que tambm se aproveitaram
Do descuido remisso de Fernando,
Despois de pouco tempo o alcanaram,
Joane, sempre ilustre, alevantando
Por Rei, como de Pedro nico herdeiro
(Ainda que bastardo) verdadeiro.

3
«Ser isto ordenao dos Cus divina
Por sinais muito claros se mostrou,
Quando em vora a voz de ũa minina,
Ante tempo falando, o nomeou.
E como cousa, enfim, que o Cu destina,
No bero o corpo e a voz alevantou:
— «Portugal, Portugal», (alando a mo,
Disse), polo Rei novo, Dom Joo.»

4
«Alteradas ento do Reino as gentes
Co dio que ocupado os peitos tinha,
Absolutas cruezas e evidentes
Faz do povo o furor por onde vinha;
Matando vo amigos e parentes
Do adltero Conde e da Rainha,
Com quem sua incontinncia desonesta
Mais, despois de viva, manifesta.

5
«Mas ele, enfim, com causa desonrado,
Diante dela a ferro frio morre,
De outros muitos na morte acompanhado,
Que tudo o fogo erguido queima e corre:
Quem, como Astians, precipitado,
Sem lhe valerem ordens, de alta torre;
A quem ordens, nem aras, nem respeito;
Quem nu por ruas, e em pedaos feito.

6
«Podem-se pr em longo esquecimento
As cruezas mortais que Roma viu,
Feitas do feroz Mrio e do cruento
Sila, quando o contrrio lhe fugiu.
Por isso Lianor, que o sentimento
Do morto Conde ao mundo descobriu,
Faz contra Lusitnia vir Castela,
Dizendo ser sua filha herdeira dela.

7
«Beatriz era a filha que casada
Co Castelhano est que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lho concede.
Com esta voz Castela alevantada,
Dizendo que esta filha ao pai sucede,
Suas foras ajunta, pera as guerras,
De vrias regies e vrias terras.

8
«Vm de toda a provncia que de um Brigo
(Se foi) j teve o nome derivado;
Das terras que Fernando e que Rodrigo
Ganharam do tirano e Mauro estado.
No estimam das armas o perigo
Os que cortando vo co duro arado
Os campos Leoneses, cuja gente
Cos Mouros foi nas armas excelente.

9
«Os Vndalos, na antiga valentia
Ainda confiados, se ajuntavam
Da cabea de toda Andaluzia,
Que do Guadalquibir as guas lavam.
A nobre Ilha tambm se apercebia
Que antigamente os Trios habitavam,
Trazendo por insgnias verdadeiras
As Hercleas colunas nas bandeiras.

10
«Tambm vm l do Reino de Toledo,
Cidade nobre e antiga, a quem cercando
O Tejo em torno vai, suave e ledo,
Que das serras de Conca vem manando.
A vs outros tambm no tolhe o medo,
srdidos Galegos, duro bando,
Que, pera resistirdes, vos armastes,
queles cujos golpes j provastes.

11
«Tambm movem da guerra as negras frias
A gente Biscainha, que carece
De polidas razes, e que as injrias
Muito mal dos estranhos compadece.
A terra de Guipscua e das Astrias,
Que com minas de ferro se enobrece,
Armou dele os soberbos moradores,
Pera ajudar na guerra a seus senhores.

12
«Joane, a quem de peito o esforo crece,
Como a Sanso Hebreo da guedelha,
Posto que tudo pouco lhe parece,
Cos poucos de seu Reino se aparelha;
E, no porque conselho lhe falece,
Cos principais senhores se aconselha,
Mas s por ver das gentes as sentenas,
Que sempre houve, entre muitos, diferenas.

13
«No falta com razes quem desconcerte
Da opinio de todos, na vontade;
Em quem o esforo antigo se converte
Em desusada e m deslealdade;
Podendo o temor mais, gelado, inerte,
Que a prpria e natural fidelidade.
Negam o Rei e a Ptria, e, se convm,
Negaro, como Pedro, o Deus que tm.

14
«Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nuno lvares; mas antes,
Posto que em seus irmos to claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
quelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mo na espada, irado e no facundo,
Ameaando a terra, o mar e o mundo:

15
— «Como?! Da gente ilustre Portuguesa
H-de haver quem refuse o ptrio Marte?
Como?! Desta provncia, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda parte,
H-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a F, o amor, o esforo e arte
De Portugus, e por nenhum respeito,
O prprio Reino queria ver sujeito?

16
«Como?! No sois vs inda os descendentes
Daqueles que, debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente to guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

17
«Com quem foram contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vs,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Seno cos vossos fortes pais e avs?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assi vos ps,
Torne-vos vossas foras o Rei novo,
Se certo que co Rei se muda o povo.

18
«Rei tendes tal, que, se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem j desbaratastes.
E, se com isto, enfim, vos no moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mos a vosso vo receio,
Que eu s resistirei ao jugo alheio.

19
«Eu s, com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca meia espada),
Defenderei da fora dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da ptria mesta,
Da lealdade j por vs negada,
Vencerei no s estes adversrios,
Mas quantos a meu Rei forem contrrios!»

20
«Bem como entre os mancebos recolhidos
Em Cansio, relquias ss de Canas,
J pera se entregar quase movidos
A fortuna das foras Africanas,
Cornlio moo os faz que, compelidos
Da sua espada, jurem que as Romanas
Armas no deixaro, enquanto a vida
Os no deixar ou nelas for perdida:

21
«Destarte a gente fora e esfora Nuno,
Que, com lhe ouvir as ltimas razes,
Removem o temor frio, importuno,
Que gelados lhe tinha os coraes.
Nos animais cavalgam de Neptuno,
Brandindo e volteando arremesses;
Vo correndo e gritando, a boca aberta:
— «Viva o famoso Rei que nos liberta!»

22
«Das gentes populares, uns aprovam
A guerra com que a ptria se sustinha;
Uns as armas alimpam e renovam,
Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
Capacetes estofam, peitos provam,
Arma-se cada um como convinha;
Outros fazem vestidos de mil cores,
Com letras e tenes de seus amores.

23
«Com toda esta lustrosa companhia,
Joane forte sai da fresca Abrantes,
Abrantes, que tambm da fonte fria
Do Tejo logra as guas abundantes.
Os primeiros armgeros regia
Quem pera reger era os mui possantes
Orientais exrcitos sem conto
Com que passava Xerxes o Helesponto;

24
«Dom Nuno lvares digo, verdadeiro
Aoute de soberbos Castelhanos,
Como j o fero Huno o foi primeiro
Pera Franceses, pera Italianos.
Outro tambm, famoso cavaleiro,
Que a ala direita tem dos Lusitanos,
Apto pera mand-los e reg-los,
Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

25
«E da outra ala, que a esta corresponde,
Anto Vasques de Almada Capito,
Que despois foi de Abranches nobre Conde;
Das gentes vai regendo a sestra mo.
Logo na retaguarda no se esconde
Das Quinas e Castelos o pendo,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preo vai de Marte.

26
«Estavam pelos muros, temerosas
E de um alegre medo quase frias,
Rezando, as mes, irms, damas e esposas,
Prometendo jejuns e romarias.
J chegam as esquadras belicosas
Defronte das imigas companhias,
Que com grita grandssima os recebem;
E todas grande dvida concebem.

27
«Respondem as trombetas mensageiras,
Pfaros sibilantes e atambores;
Alfrezes volteiam as bandeiras,
Que variadas so de muitas cores.
Era no seco tempo que nas eiras
Ceres o fruto deixa aos lavradores;
Entra em Astreia o Sol, no ms de Agosto;
Baco das uvas tira o doce mosto.

28
«Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrs tornou as ondas de medroso.
Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mes, que o som terrbil escuitaram,
Aos peitos os filhinhos apertaram.

29
«Quantos rostos ali se vem sem cor,
Que ao corao acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
maior muitas vezes que o perigo.
E, se o no , parece-o, que o furor
De ofender ou vencer o duro imigo
Faz no sentir que perda grande e rara
Dos membros corporais, da vida cara.

30
«Comea-se a travar a incerta guerra:
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns leva a defenso da prpria terra,
Outros as esperanas de ganh-la.
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba e encontra, e a terra, enfim, semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

31
«J pelo espesso ar os estridentes
Farpes, setas e vrios tiros voam;
Debaxo dos ps duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.
Espedaam-se as lanas, e as frequentes
Quedas co as duras armas tudo atroam.
Recrecem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.

32
«Eis ali seus irmos contra ele vo
(Caso feio e cruel!); mas no se espanta,
Que menos querer matar o irmo,
Quem contra o Rei e a Ptria se alevanta.
Destes arrenegados muitos so
No primeiro esquadro, que se adianta
Contra os irmos e parentes (caso estranho),
Quais nas guerras civis de Jlio e Magno.

33
« tu, Sertrio, nobre Coriolano,
Catilina, e vs outros dos antigos
Que contra vossas ptrias, com profano
Corao, vos fizestes inimigos:
Se l no reino escuro de Sumano
Receberdes gravssimos castigos,
Dizei-lhe que tambm dos Portugueses
Alguns tredores houve algũas vezes.

34
«Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
Tantos dos inimigos a eles vo.
Est ali Nuno, qual pelos outeiros
De Ceita est o fortssimo leo,
Que cercado se v dos cavaleiros
Que os campos vo correr de Tutuo:
Perseguem-no com as lanas, e ele, iroso,
Torvado um pouco est, mas no medroso;

35
«Com torva vista os v, mas a natura
Ferina e a ira no lhe compadecem
Que as costas d, mas antes na espessura
Das lanas se arremessa, que recrecem.
Tal est o cavaleiro, que a verdura
Tinge co sangue alheio. Ali perecem
Alguns dos seus, que o nimo valente
Perde a virtude contra tanta gente.

36
«Sentiu Joane a afronta que passava
Nuno, que, como sbio capito,
Tudo corria e via e a todos dava,
Com presena e palavras, corao.
Qual parida leoa, fera e brava,
Que os filhos, que no ninho ss esto,
Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
O pastor de Masslia lhos furtara,

37
«Corre raivoso e freme e com bramidos
Os montes Sete Irmos atroa e abala:
Tal Joane, com outros escolhidos
Dos seus, correndo acode primeira ala:
— « fortes companheiros, subidos
Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
Defendei vossas terras, que a esperana
Da liberdade est na nossa lana!

38
«Vedes-me aqui, Rei vosso e companheiro,
Que entre as lanas e setas e os arneses
Dos inimigos corro, e vou primeiro;
Pelejai, verdadeiros Portugueses!»
Isto disse o magnnimo guerreiro
E, sopesando a lana quatro vezes,
Com fora tira; e deste nico tiro
Muitos lanaram o ltimo suspiro.

39
«Porque eis os seus, acesos novamente
Dũa nobre vergonha e honroso fogo,
Sobre qual mais, com nimo valente,
Perigos vencer do Mrcio jogo,
Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;
Rompem malhas primeiro e peitos logo,
Assi recebem junto e do feridas,
Como a quem j no di perder as vidas.

40
«A muitos mandam ver o Estgio lago,
Em cujo corpo a morte e o ferro entrava.
O Mestre morre ali de Santiago,
Que fortissimamente pelejava;
Morre tambm, fazendo grande estrago,
Outro Mestre cruel, de Calatrava.
Os Pereiras tambm, arrenegados,
Morrem, arrenegando o Cu e os Fados.

41
«Muitos tambm do vulgo vil, sem nome,
Vo, e tambm dos nobres, ao Profundo,
Onde o trifauce Co perptua fome
Tem das almas que passam deste mundo.
E, por que mais aqui se amanse e dome
A soberba do imigo furibundo,
A sublime bandeira Castelhana
Foi derribada aos ps da Lusitana.

42
«Aqui a fera batalha se encruece
Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
A multido da gente que perece
Tem as flores da prpria cor mudadas.
J as costas do e as vidas; j falece
O furor e sobejam as lanadas;
J de Castela o Rei desbaratado
Se v e de seu propsito mudado.

43
«O campo vai deixando ao vencedor,
Contente de lhe no deixar a vida.
Seguem-no os que ficaram, e o temor
Lhe d, no ps, mas asas fugida.
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mgoa, da desonra e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo.

44
«Alguns vo maldizendo e blasfemando
Do primeiro que guerra fez no mundo;
Outros a sede dura vo culpando
Do peito cobioso e sitibundo,
Que, por tomar o alheio, o miserando
Povo aventura s penas do Profundo,
Deixando tantas mes, tantas esposas,
Sem filhos, sem maridos, desditosas.

45
«O vencedor Joane esteve os dias
Costumados no campo, em grande glria;
Com ofertas, despois, e romarias,
As graas deu a Quem lhe deu vitria.
Mas Nuno, que no quer por outras vias
Entre as gentes deixar de si memria
Seno por armas sempre soberanas,
Pera as terras se passa Transtaganas.

46
«Ajuda-o seu destino de maneira
Que fez igual o efeito ao pensamento,
Porque a terra dos Vndalos, fronteira,
Lhe concede o despojo e o vencimento.
J de Sevilha a Btica bandeira,
E de vrios senhores, num momento
Se lhe derriba aos ps, sem ter defesa,
Obrigados da fora Portuguesa.

47
«Destas e outras vitrias longamente
Eram os Castelhanos oprimidos,
Quando a paz, desejada j da gente,
Deram os vencedores aos vencidos,
Despois que quis o Padre omnipotente
Dar os Reis inimigos por maridos
s duas ilustrssimas Inglesas,
Gentis, fermosas, nclitas Princesas.

48
«No sofre o peito forte, usado guerra,
No ter imigo j a quem faa dano;
E assi, no tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este o primeiro Rei que se desterra
Da Ptria, por fazer que o Africano
Conhea, polas armas, quanto excede
A Lei de Cristo Lei de Mafamede.

49
«Eis mil nadantes aves, pelo argento
Da furiosa Ttis inquieta,
Abrindo as pandas asas vo ao vento,
Pera onde Alcides ps a extrema meta.
O monte Abila e o nobre fundamento
De Ceita toma, e o torpe Maometa
Deita fora, e segura toda Espanha
Da Juliana, m e desleal manha.

50
«No consentiu a morte tantos anos
Que de Heri to ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
Do Cu supremo quis que povoasse.
Mas, pera defenso dos Lusitanos,
Deixou, quem o levou, quem governasse
E aumentasse a terra mais que dantes:
nclita gerao, altos Infantes.

51
«No foi do Rei Duarte to ditoso
O tempo que ficou na suma alteza,
Que assi vai alternando o tempo iroso
O bem co mal, o gosto co a tristeza.
Quem viu sempre um estado deleitoso?
Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?
Pois inda neste Reino e neste Rei
No usou ela tanto desta lei?

52
«Viu ser cativo o santo irmo Fernando
(Que a to altas empresas aspirava),
Que, por salvar o povo miserando
Cercado, ao Sarraceno se entregava.
S por amor da ptria est passando
A vida, de senhora feita escrava,
Por no se dar por ele a forte Ceita.
Mais o pbrico bem, que o seu, respeita.

 53
«Codro, por que o inimigo no vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Rgulo, por que a ptria no perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que se Espanha no temesse,
A cativeiro eterno se convida.
Codro, nem Crcio, ouvido por espanto,
Nem os Dcios leais fizeram tanto.

54
«Mas Afonso, do Reino nico herdeiro
(Nome em armas ditoso em nossa Hespria),
Que a soberba do Brbaro fronteiro
Tornou em baxa e humlima misria,
Fora, por certo, invicto cavaleiro,
Se no quisera ir ver a terra Ibria.
Mas frica dir ser impossbil
Poder ningum vencer o Rei terrbil.

55
«Este pde colher as mas de ouro
Que somente o Tirntio colher pde.
Do jugo que lhe ps, o bravo Mouro
A cerviz inda agora no sacode.
Na fronte a palma leva e o verde louro
Das vitrias do Brbaro, que acode
A defender Alccer, forte vila,
Tngere populoso e a dura Arzila.

56
«Porm elas, enfim, por fora entradas,
Os muros abaxaram de diamante
s Portuguesas foras, costumadas
A derribarem quanto acham diante.
Maravilhas em armas, estremadas
E de escritura dinas elegante,
Fizeram cavaleiros nesta empresa,
Mais afinando a fama Portuguesa.

57
«Porm despois, tocado de ambio
E glria de mandar, amara e bela,
Vai cometer Fernando de Arago,
Sobre o potente Reino de Castela.
Ajunta-se a inimiga multido
Das soberbas e vrias gentes dela,
Desde Cliz ao alto Perineu,
Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

58
«No quis ficar nos Reinos ocioso
O mancebo Joane, e logo ordena
De ir ajudar o pai ambicioso,
Que ento lhe foi ajuda no pequena.
Saiu-se, enfim, do trance perigoso,
Com fronte no torvada, mas serena,
Desbaratado o pai sanguinolento,
Mas ficou duvidoso o vencimento;

59
«Porque o filho, sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavaleiro,
Nos contrrios fazendo imenso dano,
Todo um dia ficou no campo inteiro.
Destarte foi vencido Octaviano,
E Antnio vencedor, seu companheiro,
Quando daqueles que Csar mataram
Nos Filpicos campos se vingaram.

60
«Porm, despois que a escura noite eterna
Afonso apousentou no Cu sereno,
O Prncipe que o Reino ento governa
Foi Joane segundo e Rei trezeno.
Este, por haver fama sempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Os trminos, que eu vou buscando agora.

61
«Manda seus mensageiros, que passaram
Espanha, Frana, Itlia celebrada,
E l no ilustre porto se embarcaram
Onde j foi Partnope enterrada:
Npoles, onde os Fados se mostraram,
Fazendo-a a vrias gentes subjugada,
Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
Co senhorio de nclitos Hispanos.

62
«Polo mar alto Sculo navegam;
Vo-se s praias de Rodes arenosas;
E dali s ribeiras altas chegam
Que com morte de Magno so famosas.
Vo a Mnfis, e s terras que se regam
Das enchentes Nilticas undosas;
Sobem Etipia, sobre Egipto,
Que de Cristo l guarda o santo rito.

63
«Passam tambm as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;
Ficam-lhe atrs as serras Nabateias,
Que o filho de Ismael co nome ornou;
As costas odorferas Sabeias,
Que a me do belo Adnis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arbia descoberta,
Feliz, deixando a Ptrea e a Deserta.

64
«Entram no Estreito Prsico, onde dura
Da confusa Babel inda a memria;
Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem tm por glria.
Dali vo em demanda da gua pura,
Que causa inda ser de larga histria,
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde no se atreveu passar Trajano.

65
«Viram gentes incgnitas e estranhas
Da ndia, da Carmnia e Gedrosia,
Vendo vrios costumes, vrias manhas,
Que cada regio produze e cria.
Mas de vias to speras, tamanhas,
Tornar-se facilmente no podia.
L morreram, enfim, e l ficaram,
Que desejada ptria no tornaram.

66
«Parece que guardava o claro Cu
A Manuel e seus merecimentos
Esta empresa to rdua, que o moveu
A subidos e ilustres movimentos;
Manuel, que a Joane sucedeu
No Reino e nos altivos pensamentos,
Logo como tomou do Reino cargo,
Tomou mais a conquista do mar largo.

67
«O qual, como do nobre pensamento
Daquela obrigao que lhe ficara
De seus antepassados (cujo intento
Foi sempre acrecentar a terra cara),
No deixasse de ser um s momento
Conquistado, no tempo que a luz clara
Foge, e as estrelas ntidas que saem
A repouso convidam, quando caem.

68
«Estando j deitado no ureo leito,
Onde imaginaes mais certas so,
Revolvendo contino no conceito
De seu oficio e sangue a obrigao,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o corao;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em vrias formas lhe aparece.

69
«Aqui se lhe apresenta que subia
To alto, que tocava prima Esfera,
Donde diante vrios mundos via,
Naes de muita gente, estranha e fera.
E l bem junto donde nace o dia,
Despois que os olhos longos estendera,
Viu de antigos, longnquos e altos montes
Nacerem duas claras e altas fontes.

70
«Aves agrestes, feras e alimrias
Pelo monte selvtico habitavam;
Mil rvores silvestres e ervas vrias
O passo e o trato s gentes atalhavam.
Estas duras montanhas, adversrias
De mais conversao, por si mostravam
Que, ds que Ado pecou aos nossos anos,
No as romperam nunca ps humanos.

71
«Das guas se lhe antolha que saam,
Pera ele os largos passos inclinando,
Dous homens, que mui velhos pareciam
De aspeito, inda que agreste, venerando;
Das pontas dos cabelos lhe saam,
Gotas, que o corpo todo vo banhando;
A cor da pele, baa e denegrida,
A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

72
«De ambos de dous a fronte coroada
Ramos no conhecidos e ervas tinha.
Um deles a presena traz cansada,
Como quem de mais longe ali caminha;
E assi a gua, com mpeto alterada,
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeu de Arcdia em Siracusa
Vai buscar os abraos de Aretusa.

73
«Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte pera o Rei de longe brada:
— « tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo est guardada,
Ns outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que tempo que j mandes
A receber de ns tributos grandes.

74
«Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o bero verdadeiro;
Estoutro o Indo, Rei, que, nesta serra
Que vs, seu nascimento tem primeiro.
Custar-te-emos, contudo, dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com no vistas vitrias, sem receio
A quantas gentes vs pors o freio.»

75
«No disse mais o Rio ilustre e santo,
Mas ambos desparecem num momento.
Acorda Emanuel cum novo espanto
E grande alterao de pensamento.
Estendeu nisto Febo o claro manto
Pelo escuro Hemisfrio sonolento;
Veio a manh no cu pintando as cores
De pudibunda rosa e roxas flores.

76
«Chama o Rei os senhores a conselho
E prope-lhe as figuras da viso;
As palavras lhe diz do santo velho,
Que a todos foram grande admirao.
Determinam o nutico aparelho,
Pera que, com sublime corao,
V a gente que mandar cortando os mares,
A buscar novos climas, novos ares.

77
«Eu, que bem mal cuidava que em efeito
Se pusesse o que o peito me pedia,
Que sempre grandes cousas deste jeito,
Pressago, o corao me prometia,
No sei por que razo, por que respeito,
Ou por que bom sinal que em mi se via,
Me pe o nclito Rei nas mos a chave
Deste cometimento grande e grave.

78
«E com rogo e palavras amorosas,
Que um mando nos Reis que a mais obriga,
Me disse: — «As cousas rduas e lustrosas
Se alcanam com trabalho e com fadiga;
Faz as pessoas altas e famosas
A vida que se perde e que periga,
Que, quando ao medo infame no se rende,
Ento, se menos dura, mais se estende.

79
«Eu vos tenho entre todos escolhido
Para ũa empresa, qual a vs se deve,
Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
O que eu sei que por mi vos ser leve.»
No sofri mais, mas logo: — « Rei subido,
Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
to pouco por vs, que mais me pena
Ser esta vida cousa to pequena.

80
«Imaginai tamanhas aventuras
Quais Euristeu a Alcides inventava:
O leo Cleonu, Harpias duras,
O porco de Erimanto, a Hidra brava,
Decer, enfim, s sombras vs e escuras
Onde os campos de Dite a Estige lava;
Porque a maior perigo, a mor afronta,
Por vs, Rei, o esprito e carne pronta.»

81
«Com mercs sumptuosas me agardece
E com razes me louva esta vontade,
Que a virtude louvada vive e crece
E o louvor altos casos persuade.
A acompanhar-me logo se oferece,
Obrigado de amor e de amizade,
No menos cobioso de honra e fama,
O caro meu irmo Paulo da Gama.

82
«Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
De trabalhos mui grande sofredor.
Ambos so de valia e de conselho,
De experincia em armas e furor.
J de manceba gente me aparelho,
Em que crece o desejo do valor;
Todos de grande esforo; e assi parece
Quem a tamanhas cousas se oferece.

83
«Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mnias ajuntados,
Pera que o Vu dourado combatessem,
Na fatdica Nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxnio, aventureira.

84
«E j no porto da nclita Ulisseia,
Com alvoroo nobre e cum desejo
(Onde o licor mistura e branca areia
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes esto; e no refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente martima e a de Marte
Esto pera seguir-me a toda parte.

85
«Pelas praias vestidos os soldados
De vrias cores vm e vrias artes,
E no menos de esforo aparelhados
Pera buscar do mundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeiam os areos estandartes.
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

86
«Despois de aparelhados, desta sorte,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhmos a alma pera a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etrea Corte
Sustenta s co a vista veneranda,
Implormos favor que nos guiasse,
E que nossos comeos aspirasse.

87
«Partimo-nos assi do santo templo
Que nas praias do mar est assentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, Rei, que, se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E ns, co a virtuosa companhia
De mil religiosos diligentes,
Em procisso solene, a Deus orando,
Pera os batis viemos caminhando.

89
«Em to longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mes, Esposas, Irms, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperao e frio medo
De j nos no tornar a ver to cedo.

90
«Qual vai dizendo:— « filho, a quem eu tinha
S pera refrigrio e doce emparo
Desta cansada j velhice minha,
Que em choro acabar, penoso e amaro,
Porque me deixas, msera e mesquinha?
Porque de mi te vs, filho caro,
A fazer o funreo enterramento
Onde sejas de pexes mantimento?"

91
«Qual em cabelo:— « doce e amado esposo,
Sem quem no quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que minha e no vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeio to doce nossa?
Nosso amor, nosso vo contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»

92
«Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e de piadosa humanidade,
Os velhos e os mininos os seguiam,
Em quem menos esforo pe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lgrimas banhavam,
Que em multido co elas se igualavam.

93
«Ns outros, sem a vista alevantarmos
Nem a Me, nem a Esposa, neste estado,
Por nos no magoarmos, ou mudarmos
Do propsito firme comeado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que de amor usana boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94
«Mas um velho, d’ aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em ns os olhos, meneando
Trs vezes a cabea, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que ns no mar ouvimos claramente,
Cum saber s de experincias feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
— « glria de mandar, v cobia
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
fraudulento gosto, que se atia
Cũa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justia
Fazes no peito vo que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

96
«Dura inquietao d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultrios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de imprios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vituprios;
Chamam-te Fama e Glria soberana,
Nomes com quem se o povo nscio engana;

97
«A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe fars to fcilmente?
Que famas lhe prometers? Que histrias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitrias?

98
«Mas, tu, gerao daquele insano
Cujo pecado e desobedincia
No somente do Reino soberano
Te ps neste desterro e triste ausncia,
Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocncia,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:

99
«J que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve Fantasia,
J que bruta crueza e feridade
Puseste nome, esforo e valentia,
J que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que j
Temeu tanto perd-la Quem a d:

100
«No tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre ters guerras sobejas?
No segue ele do Arbio a Lei maldita,
Se tu pola de Cristo s pelejas?
No tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
No ele por armas esforado,
Se queres por vitrias ser louvado?

101
«Deixas criar s portas o inimigo,
Por ires buscar outro de to longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraquea e se v deitando a longe!
Buscas o incerto e incgnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor com larga cpia,
Da ndia, Prsia, Arbia e de Etipia.

102
«Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela ps em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juzo algum, alto e profundo,
Nem ctara sonora ou vivo engenho,
Te d por isso fama nem memria,
Mas contigo se acabe o nome e glria!

103
«Trouxe o filho de Jpeto do Cu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua esttua ilustre no tivera
Fogo de altos desejos que a movera!

104
«No cometera o moo miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho, dando,
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, gua, calma e frio,
Deixa intentado a humana gerao.
Msera sorte! Estranha condio!»

 

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto IV
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