nunca poderás acusar-me de termos conhecido o luxo
vivemos na humildade de riquezas só imaginadas
e no terror da insónia
onde o obsessivo corpo substituiu a suave cocaína
as abelhas envelheceram na paixão do mel

estive quase sempre ausente dos dias
fechado em longínquos favos calcinados
rodeado de livros velhos alguma roupa
e uma caixa de sapatos cheia de cartas indecifráveis
que chegavam para queimar a clara memória do olhar

quantos anos se esgotaram na espera?
será que não explode um corpo?
repara
naquela mancha de metal sujo sobre o mar
nela se afunda a vida triste do rosto encostado
ao vidro de assustadoras janelas

no entanto eu sei que se conseguir escrever
um verso que seja
será suficiente para adiar o branco infinito da morte

 


In O Medo
Al Berto
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