Partir-me do meu bem, triste partida!
Estar onde ele est, duro tormento!
V-lo e no o ver, penosa vida!
No tem minha alma enfim contentamento.
Qual alma se viu nunca perseguida
de to contrrio e grave sentimento
que assi a fere tudo e entristece,
que com o mal e o bem sempre padece?

Se to conforme estou com meu cuidado,
donde lhe nace um bem to diferente?
So tudo desconcertos do meu fado,
que nenhum breve gosto me contente.
J comeo a sentir o triste estado
e a saudosa dor da vida ausente,
pois me aparta de vs, indo comigo,
o Amor que me foi sempre to imigo.

Seguindo minha estrela triste, escura,
vou por remoto mar em um leve lenho,
buscando pera a vida sem ventura
bonanas da ventura que eu no tenho.
Mas se me a vida muito tempo atura
e a tanto mal, depois de tantos, venho,
eu chorarei a minha triste sorte,
pois me contrria a vida e mais a morte.

Cercado de saudosa e v lembrana
nascida j do muito que vos quero,
descobrirei meu mal sem esperana
ao furioso mar e vento fero;
descobrirei nesta spera mudana
a quo perfeito amor quo pouco espero,
pera que tudo saiba e tudo veja
quanto esta alma vos ama e vos deseja.

Quanto me alongo mais, de grito em grito,
bradando irei por vs continuamente,
levando vosso nome n'alma escrito
pera o celebrar de gente em gente.
Que vendo vosso ser to infinito,
se espantem como vivo, estando ausente.
Mas no tenho eu saber para louvar-vos,
que nunca soube mais seno amar-vos.

Vendo-me na tormenta furiosa,
na bonana quieta e sossegada,
vos direi como sois alva e fermosa
nos saudosos olhos transformada
que, enlevados na vista deleitosa
que me traz a alma alheia e transformada,
far-me-o todo trabalho doce e leve
e a mais comprida (noite?) curta e breve.

Um s remdio quero que procure
a minha alma, Senhora, o qual pretendo
e no pera que a vida mais me dure,
que desde agora a estou aborrecendo;
mas para que a meus olhos se afigure
a vossa alegre vista, no vos vendo,
peo ao Amor que assi me favorea,
que quanto eu vir convosco se parea.

Bem sei que em tanta dor, tanto tormento,
mal to sem esperana, to sem cura,
era melhor remdio esquecimento.
Mas no permita tal minha ventura;
antes, se me esquecer do pensamento
com que eu adoro vossa fermosura,
o cu se me escurea e tudo seja
contrairo ao que a minha alma mais deseja.

E se dos vossos olhos vencedores
em algum tempo me virem esquecido
ou se eu tiver, Senhora, outros amores,
nem inda que seja amor fingido,
o bem de vossos doces disfavores,
em que me fazeis ser to bem perdido
se me converta em dor, pena e cuidado
e morra descontente e desamado.

Luís Vaz de Camões
[PARTIR-ME DO MEU BEM TRISTE PARTIDA!]
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