Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo à flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração  ligeira, sinal  puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no  interior da  carne, as pernas se  distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos  esguios   escorrendo  trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor...
ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida  sem  gosto, corpo sem  rosto, amor sem  fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar
                                                                       [na  vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distracção no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar,  rasgar, tocar na  dor ignota,
hesitação,  vertigem,  pressa  arrependida,
insuportável  triturar, deslize amargo,
tremor,  ranger,
arcos, soluços,  palpitar e  queda.
Distantemente uma alegria foi,
imensa, já   tranquila,  apascentando orvalhos,
de  contacto a   contacto,  ansiosamente  serenando.
obscuro sexo ã flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei  destronado,  deus  lembrado,   homem  cumprido.

Distantemente,   irónico,  esquecido.

 

 

 

 

 


In Pedra Filosofal
Jorge de Sena
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