Eu olho com saudade esse futuro
Em que serei mais novo que depois,
E essa saudade, com que me sinto dois,

Cerca-me como um mar ou como um muro.
Não descreio, nem creio; mas ignoro:
‘Stou posto onde se cruzam as estradas,
Multiplicando definidos nadas,

E no meio do jogo amuo e choro.
O presságio roeu os meus prenúncios.
Velei a esfinge com serapilheiras.
E os jardins dispostos em quincúncios

Dão sobre esteiras de mar morto e vago,
E um vapor de corda, sem bandeiras,
Pára no tanque, que nos finge um lago.

 

28 - 5 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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