a


A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão. 
Passo nas ruas, tenho a sensação 
De um carnaval cheio de cor e poeira... 

A cada hora tenho a dolorosa 
Sensação, agradável todavia, 
De ir aos encontrões atrás da alegria 
Duma plebe farsante e copiosa... 

Cada momento é um carnaval imenso, 
Em que ando misturado sem querer. 
Se penso nisso maça-me viver 
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso 

De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça 
Dentro a quem quer parar um só momento 
Em ver onde é que tem o pensamento 
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça... 
Automóveis, veículos, □ 
As ruas cheias, □
Fitas de cinema correndo sempre 
E nunca tendo um sentido preciso. 

Julgo-me babado, sinto-me confuso, 
Cambaleio nas minhas sensações, 
Sinto uma súbita falta de corrimões 
No pleno dia da cidade □
Uma pândega esta existência toda... 
Que embrulhada se mete por mim dentro 
E sempre em mim desloca o crente centro 
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda... 

E contudo eu estou como ninguém 
De amoroso acordo com isto tudo... 
Não encontro em mim, quando me estudo, 
Diferença entre mim e isto que tem 

Esta balbúrdia de carnaval tolo, 
Esta mistura de europeu e zulu 
Este batuque tremendo e chulo 
E elegantemente em desconsolo... 

Que tipos! Que agradáveis e antipáticos! 
Como eu sou deles com um nojo a eles! 
O mesmo tom europeu em nossas peles 
E o mesmo ar conjuga-nos □

Tenho às vezes o tédio de ser eu 
Com esta forma de hoje e estas maneiras... 
Gasto inúteis horas inteiras 
A descobrir quem sou; e nunca deu 

Resultado a pesquisa... Se há um plano 
Que eu forme, na vida que talho para mim 
Antes que eu chegue desse plano ao fim 
Já estou como antes fora dele. É engano 

A gente ter confiança em quem tem ser... 
Olho p’ró tipo como eu que aí vem... 
□  
Como se veste □  bem 
Porque é uma necessidade que ele tem 
Sem que ele tenha essa necessidade. 

Ah, tudo isto é para dizer apenas 
Que não estou bem na vida, e quero ir 
Para um lugar mais sossegado, ouvir 
Correr os rios e não ter mais penas. 

Sim, estou farto do corpo e da alma 
Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se... 
Cada momento é um corpo no que nasce... 
Mas o que importa é que não tenho calma. 
Não tenciono escrever outro poema 
Tenciono só dizer que me aborreço. 
A hora a hora minha vida meço 
E acho-a um lamentável estratagema 
De Deus para com o bocado de matéria 
Que resolveu tomar para meu corpo... 
Todo o conteúdo de mim é porco 
E de uma chatíssima miséria. 
Só é decente ser outra pessoa 
Mas isso é porque a gente a vê por fora... 
Qualquer coisa em mim parece agora 
□  

b


É Carnaval, e estão as ruas cheias 
De gente que conserva a sensação, 
Tenho intenções, pensamento, ideias, 
Mas não posso ter máscara nem pão. 
Esta gente é igual, eu sou diverso — 
Mesmo entre os poetas não me aceitariam. 
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
 E o que digo, eles nunca assim diriam. 
Que pouca gente a muita gente aqui! 
Estou cansado, com cérebro e cansaço. 
Vejo isto, e fico, extremamente aqui 
Sozinho com o tempo e com o espaço. 
De trás de máscaras nosso ser espreita, 
De trás de bocas um mistério acode 
Que meus versos anódinos enjeita. 
Sou maior ou menor? Com mãos e pés 
E boca falo e mexo-me no mundo. 
Hoje, que todos são máscaras, és 
Um ser máscara-gestos, em tão fundo... 

c

□  não tenho compartimentos estanques 
Para os meus sentimentos e emoções... 
Vidas, realmente se misturam 
O que era cérebro acaba sentimento 
Minha unidade morre ao relento 
Quando quero pensar, sinto, não sei 
Se me sinto quem sou e queria. 
Psique de fora da psicologia, 
Vivo fora da □  e da lei 
Amorfo anexo ao mundo exterior 
Reproduzindo tudo o que nele há 
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá 
Compensar pessoalmente a minha dor. 
Não: sempre as dores doutra gente que é eu 
(Sempre alegrias de várias pessoas) 
[…]
Sempre de um centro diferente e meu 
Carnaval de □
Bebendo p’ra se sentir alegres e outros 
Outros bebendo como eles □  se sentem 
Tendo de ser alegres □  
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa 
Prendam-me para que eu não faça mais versos 
Façam [?ad finem?] com que o sentir cesse 
Proíbam-me pensar com a cabeça. 
Dói-me a vida em todos os meus poros 
Estala-me na cabeça o coração, 
Para que escrevo? É uma pura perda.
□ 
Depois […] 
Se escrevo o que sinto [….]. Bom. Merda. 

Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta 
Entorno-a aqui só para a entornar... 
Não haver vida que se possa DAR! 
Não haver alma com que não se sinta! 

Não haver como essa alma consertar-me 
Com cordéis ou arames que se aguentem 
Com ferros e madeiras que não mentem 
E me dêem unidade no aguentar-me! 

Não haver □
Não haver, não [....] 
Não haver. Não Haver! 

d


Aquela falsa e triste semelhança 
Entre quem julgo ser e quem eu sou. 
Sou a máscara que volve a ser criança, 
Mas reconheço, adulto, aonde estou, 

Isto não é o Carnaval, nem eu. 
Tenho vontade de dormir, e ando. 
O que passa, ondeando, em torno meu, 
Passa□

Dormir, despir-me deste mundo ultraje, 
Como quem despe um dominó roubado. 
Despir a alma postiça como a um traje. 

Tenho náusea carnal do meu destino. 
Quase me cansa me cansar. E vou, 
Anónimo, □  menino, 
Por meu ser fora à busca de quem sou. 
 
 
 
 □ espaço deixado em branco pelo autor


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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