PISCATRIA

Arde por Galateia branca e loura
Sereno, pescador pobre, forado
de ũa estrela cruel que mngua moura.

Os outros pescadores tm lanado
no Tejo as redes; ele s fazia
este queixume ao vento descuidado:

«Quando vir, fermosa Ninfa, o dia
em que te possa dar a conta estreita
desta doudice triste e v porfia?

No vs que me foge a alma e que me enjeita,
buscando num s riso da tua boca,
nos teus olhos azuis, mansa colheita?

Se a esse esprito algũa mgoa toca,
se de Amor fica nele ũa pegada,
que te vai, Galateia, nesta troca?

Dar-te-ei minha alma; l ma tens roubada;
no ta demandarei; d-me por ela
ũa s volta de olhos descuidada.

Se muito te parece, e minha estrela
no consentir ventura to ditosa,
dou-te as asas do Amor perdidas nela.

Que mais te posso dar, Ninfa fermosa,
inda que o mar de aljfar me cubrira
toda esta praia leda e graciosa?

Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste no sossega;
arde o peito em vo, em vo suspira.

Ao romper d'alva anda a nvoa cega
sobre os montes da Arrbida viosos,
enquanto a eles a luz do sol no chega.

Eu vejo aparecer outros fermosos
raios, que a graa e cor ao cu roubaram;
ficam meus olhos cegos mais saudosos.

Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mgoa e me escutaram!

Se na fora da dor a voz levanto,
e ao som do remo que a gua vai ferindo
por alta Lũa meu cuidado canto,

os maviosos delfins me esto ouvindo;
a noite sossegada; o mar, calado.
S, Galateia, foges e vs rindo.

Estranhas, porventura, o mar cercado
da fraca rede, a barca ao vento solta,
e um pobre pescador aqui lanado?

Antes que o sol d no cu ũa volta
se pode melhorar minha ventura,
como acontece aos outros, n'gua envolta.

Igual preo no da fermosura
areia de ouro, que o rico Tejo espraia,
mas um amor que para sempre dura.

Vejam teus olhos, bela Ninfa, a praia;
vers teu nome na mimosa areia.
Nunca sobre ele o mar com fria saia,

que at agora nem vento e ar salteia!
Trs dias h que escrito aqui o deixou
Amor, guardando-o a toda a fora alheia.

Ele com suas mos mesmo ajudou
escolher estas conchas que, guardando,
ũa e ũa para ti s ajuntou.

Um ramo te colhi de coral brando;
antes que o ar lhe desse, parecia
o que eu de tua boca estou cuidando.
Ditoso se o soubesse inda algum dia!

Luís Vaz de Camões
[ARDE POR GALATEIA BRANCA E LOURA]
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