I

A tua mão que lindos dedos tem,
          E sobre eles pesados anéis!
Como a alma neles se detém!
Em cada dedo valiosa gema!
Em cada dedo valiosa gema,
E cada anel como um diadema!

Quando os dois estamos em solidão,
Um só desejo minha alma tortura —
Segurar na minha essa tua mão,
Toda a noite, anéis pondo e tirando,
Enquanto canta a ave nocturna.

II
Quando tu me vês, hora após hora,
Contemplando com febril olhar
Tua boca, teus dentes, tua mão,
E notas como a minh’alma devora
No torpor em que se deixa extasiar
As coisas mais banais que aí estão,

E me perguntas o que nelas vejo,
Que a cada uma o espírito se prende
Como se nelas um mistério houvesse,
Nas tuas conjecturas estás errada,
Pois minha obsessão constantemente,
Não é cada coisa, em si, esgotada,
Mas, de coisas, o existir somente.

III
          Os olhos são coisas raras.
Neles o sentido se transforma em vida.
          Neles a vida tem asas.

Olha para mim. É louco e estranho o teu olhar.
Uma luta interior se vê reflectida.
 Mais que belo Horror ele vem revelar!

IV

1
Quando tu falavas, apenas sentia
           Um terror alienado e estranho.
Imagina. Ajoelhar-me poderia
Ante teus lábios, seu mover, seu desenho.
          A forma dos lábios, cheia de expressão
          E teus dentes meio descobertos
Eram do delírio, chicotes despertos.
          Senti desaparecer minha razão.

Um fetichismo mais que sensual
          Visita minha mente delirante.
Maior do que o abismo se apresenta
A fenda entre razão e sentimento
          Aberta ao alvião do sentimento.

Tudo contém mais do que aparenta

2
Algo fora deste mundo há no mover
          Vivo em teus lábios, no sorrir;
Figura, forma, porquê não sei dizer,
Desperta em mim — sem nada proferir,
          Mas num terror que não sei repelir,
               Um mudo terror desordenado —
Serão lembranças, serão desejos
          Tão vagamente pressentidos a adejar,
Sem raiz no pensar ou no sentir?

          O tino se me esvai e fico pronto
          Para em tudo captar e encontrar
          Sentidos, pontos de encontro,
          De uma forma que escapa ao meu pensar.

Não sorrias. Não podes entender!
          O que é isto? Que verdade adormecida
          Nestes sonhos sem fim se pode ver
               Além da razão funda e consentida?
Não rias. Sabes o que é a loucura?
Não te espantes. É ver mistérios em tudo.
          Não perguntes. Pois quem pode responder?
Criança, chora por mim, mas sem amar,
Eu que a mim mesmo me sinto ultrapassar
          Em tanto, que «Eu» já não posso dizer.

          Chora, sim, pela mental sanidade,
Pelas coisas que tão fundo me afectara
          E da razão clara me privaram
               Para ser Alguém na Humanidade.

V
Vejo, criança, teus olhos passar
Sobre uma sombra, como lançada por asas
          Duma ave veloz em seu cruzar
          A janela do castelo contra o sol:
          Assim a sombra voa ao teu olhar…

As almas de coisas mortas, passadas,
Vêm as aparências das vivas visitar.

1908

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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