Aqui, neste sossego e apartamento,
Nesta quieta solidão sem fim,
Sem cuidado ou tormento
Que ocupe este momento,
Da vida e mundo volto-me para mim.

Tão breve sombra do que pude ser
Me encontro, tão perdida semelhança
Com minha vida por acontecer,
Tão nocturna lembrança
Do dia e do viver,

Que se perturba a solidão, e eu moro
Entre homens novamente
E novamente cheio
O que fui de outros, e que rememoro,
E, memorando-o, é mais insubsistente.
 
Ténue, vazio, inútil, imperfeito.

15 - 5 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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