Tenho em vez de pensamento
Um desespero sem fim.
Não apanhar um momento
E guardá-lo dentro em mim
Num cofre d'ouro e marfim!

Colhe-se a flor e ela morre;
Morre não sendo colhida.
Para a Dor tudo me corre
E entre meus dedos a vida
Ténue líquido, se escorre.

Não o guardo: tudo passa
E eu tenho em mim o amargor
De o sentir como desgraça
E a minha Vida repassa
Essa irreparável dor.

Em vão fecho e cerro a mão.
Amor por tudo que existe
Se existe, em mim tenho.
Ah não poder (sonho triste!)
Um momento só □

Nesse cofre d'ouro e marfim,
Eu às vezes o abriria...
Mas então que sentiria?
Se o momento real assim
Pudesse guardar em mim!

Já tremo do que desejo?
Como se possível fosse!
Em tudo, eu te vejo.
Mas às vezes é doce
Na tristeza dar um beijo.

Esfinge do tempo, calma
Gelas-me de triste horror!
Tu tens alma, tu tens alma!
Dá teu segredo estertor
Di-lo, di-lo à minha dor!

□ Espaço deixado em branco pelo autor


15-11-1908

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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