Como criança, ou como condenado,
Livre de culpa ou cheio de pecado,
Dorme teu ser cansado.

Quem dorme, porque é nada e é ninguém,
E sua essência de dormente tem
Direito a qualquer bem.

Ao menos à renúncia e ao perdão
Que, ambos, vestígios ignorados são
De uma maior visão.

Quem dorme é inocente e volta a ser
O que em criança foi sem perceber —
O que sonha sem ter…

Dorme. Inda que te odiasse, nesta hora
Nada em mim odiaria, que a pastora
As idas reses chora…

Sim: há um monte para além de aqui
Onde um rebanho pasce, e ali, ali,,
Esta vida sorri.

 

7 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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