E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
um novo inverno


Cortaram-me os pulsos. Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
0 ímpeto aéreo das águas secretas.


Partiram-me ao meio dizendo «é agora!»
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.


Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira á passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.


E os anjos á volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada uns cumes acesos:
bandeira de tudo o que trago comigo

 


In Passaporte
Natália Correia
A DEMIURGIA DO RISO
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