Entre as tuas jóias há um anel antigo,
Com uma gema dos gnósticos, talismã

Nós dissemos à fé da nossa infância: Vai-te.
Esquecemos o que aprendemos com os beijos de mãe.
Hoje não somos felizes, nem grandes, e vem
Sobre nós um tédio

Ó horas sobre os cais dos portos que não veremos!
Vinde um momento fazer parte de um sonho falso.

Quem nos virá dizer as palavras que Cristo
Deixou secretas no fundo divino do seu coração?

Sofrer... Toda a nossa vida dia a dia é isto...
Quem nos consolará, sendo ele a Consolação?...

Mas dos meus sonhos
Só a dor de serem apenas sonhos toca na vida.


[1-3-1917]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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