Tenho sono. Depois de não sentir
Em tão longos momentos de pensar,
Cansei-me de saber que era sonhar,
E só sonhar, o que era eu existir.

E, assim, recluso entre os errados muros
Das conclusões a que ninguém chegou,
Abdiquei minha sombra e o que sou
Em grandes, vagos, gestos só obscuros...

Puseram os taipais no que perdi.
Negaram a verdade ao que sonhei.
E então, então, me coroaram rei
E senti a coroa que não vi.

8 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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