Poeta
Canta, avezinha, uma canção bonita, 
Não sobre o presente; 
Nem sobre o futuro que ainda dormita 
No castelo das horas onde o tempo habita, 
Tão longinquamente. 

Canta uma canção do que foi passado 
E foi teu anelo, 
Uma canção à qual só treinado 
O coração que amar tem recusado 
O que apenas belo. 

Ave 
Jovem, muito nova, foram-me buscar 
Às árvores e vales; 
Chora comigo — não as posso lembrar 
Senão em vago, ansioso pensar: 
Cantarei meus males? 

Poeta 
Canta, avezinha, canta essa canção — 
Nada mais querido — 
Vinda do espírito que suspira em vão 
Não pelo passado em desolação, 
Mas p’lo não havido. 

Canta, avezinha, canta esses trinados; 
Pudesse eu cantar 
Os sons que recordo, mas nunca escutados, 
Desejos que à alma chegam avivados 
Até magoar. 

Ave 
Soltar esse canto p’ra mim é imenso; 
Tenta tu cantar! 
Canto ao dia claro e ao sol intenso 
E quando, à noite, o luar é tão denso 
Que te faz chorar. 

Mas tu que cantas em dor, a sofrer, 
Tua voz é apta 
P’ra dizer o anseio que te vem encher, 
Angústia impossível de descrever, 
Dela a sombra vaga. 

Poeta 
Cantemos, ó ave, cada momento Um canto de agora, 
Vindo do nosso comum sentimento 
De que o que morre ou se vai perdendo 
Não se vai embora. 


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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