ao coração da terra desce o luar
pressinto as quilhas dos navios romperem a cinza da manhã
        (escrevo um diário
        fumo
        bebo
        aborreço-me)
atravesso o relâmpago esquecido na veia óssea da noite
reconheço o sítio onde os corpos já não se encontram
        (estou sentado numa cadeira de lona
        olho o mar
        é tudo o que sei fazer
        olhar o mar e não pensar)
tocámo-nos apesar do que violentamente ficou dito

agora só vens no veludo manchado dos sonhos
pérola mastigada na queimadura da boca
ou quando arrumo as fotografias surges inesperadamente
do fundo da gaveta com o perfume áspero da madeira

anoitece...o ar está impregnado de iodo
um fio de luz define o rosto contra a parede
a cal retém o sussurrar antigo dos corpos
e quando a manhã se aproxima da janela
a memória seca ou dorme para sempre
      
        (a boca
        talvez fosse a boca de A. surgindo
        sobre a folha de papel
        respirando)

ainda continuei a escrever durante alguns dias
sem grande rigor é certo...uma aranha movia-se nos vidros
a melancolia trepava ao cimo das árvores
assustando os insectos da folhagem e os pássaros
esperei o sono com suas pálpebras vegetais e a paixão
apareceu naquele rosto orvalhado abrindo-se enfim
à constelação doutro rosto sujo de tinta e de palavras

 


In O Medo
Al Berto
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