Minha alma é uma galera abandonada
      Numa praia deserta...
Das águas da maré no preiamar banhada
E ao baixamar meio secada ao sol descoberta.

Uma galera abandonada pelos sonhos
      Que não morreram mas se foram
Não sei para onde... São tristonhos
Os dias cujas tardes sobre a galera choram.

Deixai que hora corra por entre os dedos...
Chamemos os sonhos outra vez, ao nosso lugar de □
Aonde nessa praia deserta e com rochedos
A nossa alma é uma galera abandonada.

□ espaço deixado em branco pelo autor

5 - 7 - 1911

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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